Do campus ao terreno: o Impact Center que transforma ciência em ação climática
O Impact Center for Climate Change liga universidades, autarquias e comunidades para transformar conhecimento científico em ação contra os riscos climáticos. “Converter teoria em impacto” é o ADN do projeto que já desenvolve um estudo pioneiro sobre incêndios florestais, como refere Tomé Pedroso, da Fidelidade
O Impact Center for Climate Change (ICCC) da Fidelidade nasceu com uma ambição pouco comum no panorama nacional: unir ciência, território, instituições e ação prática para produzir conhecimento aplicável e responder aos riscos crescentes das alterações climáticas. Co-coordenado por Tomé Pedroso, assessor da Comissão Executiva da seguradora, o centro está a implementar uma abordagem colaborativa que procura romper com os “silos” académicos e transformar investigação em soluções reais para quem vive diariamente a vulnerabilidade climática.
Desde o primeiro momento, o ICCC procurou estruturar uma metodologia clara para identificar riscos físicos — como incêndios, precipitação extrema, ondas de calor ou inundações — e relacioná-los com os sistemas socioeconómicos mais passíveis de serem afetados. O objetivo central é transformar conhecimento em ação. Para Tomé Pedroso, “é só através de um esforço de inclusão e de colaboração que podemos gerar mais conhecimento partilhado e com mais impacto em ações práticas”.
Enfrentar riscos complexos como os climáticos exige “uma visão multifacetada” e “o envolvimento de várias perspetivas”, garantindo que as medidas chegam verdadeiramente ao terreno e são eficazes. Assim, trabalhar isoladamente — seja uma universidade sozinha ou um organismo isolado — tende a gerar resultados inferiores aos de um esforço colaborativo entre várias instâncias.
Por isso, o ICCC está a construir parcerias com múltiplas entidades, “no sentido de aproximar a investigação das populações, da realidade sentida e das dificuldades no terreno”.
É só através de um esforço de inclusão e de colaboração que podemos gerar mais conhecimento partilhado e com mais impacto em ações práticas.
Desta forma, o ICCC assume como prioridade romper com o distanciamento entre investigação e implementação. “Queremos juntar conhecimentos diferentes, perspetivas diferentes, experiências diferentes”, afirma Tomé Pedroso. Esta abordagem permite criar “visões comuns e partilhadas” que enriquecem a análise e antecipam problemas reais do território. Neste contexto, o responsável reconhece um problema recorrente da investigação cientifica: “Muitas vezes sofremos do mal de ter muita investigação, muita discussão, muito estudo… mas que depois fica confinado à academia e não tem impacto no terreno”.
Segundo Tomé Pedroso, “o ADN deste centro é combinar teoria com impacto”, sublinha, garantindo que todo o trabalho desenvolvido tem orientação para aplicação e resultados concretos.
Entre os primeiros projetos do ICCC está um estudo nacional sobre incêndios florestais, centrado na quantificação do risco, das perdas e das vulnerabilidades.
“Os incêndios florestais são um dos riscos que mais nos preocupam”, afirma Tomé Pedroso, lembrando que o fenómeno tende a agravar-se com as alterações climáticas, a desertificação e a evolução demográfica.
Apesar de ser um tema recorrente no debate público, o responsável sublinha que “falta informação relevante sobre aquilo que é o risco de incêndio florestal”. Medir risco, explica, implica uma abordagem rigorosa capaz de avaliar perigosidade, exposição, vulnerabilidade e curvas de danos com base estatística. O estudo introduz uma abordagem inédita no país e analisa o risco de incêndio com um nível de detalhe nunca antes usado em Portugal. “Estamos a falar de uma resolução de 100 metros”, sublinha. A primeira fase incidirá sobre a componente habitacional e social, abrindo caminho à análise futura do risco para outros sistemas socioeconómicos. O projeto será desenvolvido por “várias universidades de várias cidades do país” num modelo colaborativo que pretende incluir organismos públicos envolvidos na prevenção e gestão dos incêndios.
O objetivo é claro: produzir conhecimento aplicável que “possa ter um impacto significativo na redução do risco de incêndio florestal em Portugal”.
Converter investigação em medidas concretas é, para o ICCC, tão importante quanto o rigor científico. Desde o início, o centro procura envolver todos os stakeholders relevantes. “É importante envolver todas as instituições e ter um discurso aberto e um diálogo permanente para entender as preocupações e incorporá- las naquilo que são os aspetos relevantes a estudar”, afirma Tomé Pedroso.
Segundo Tomé Pedroso, é o alinhamento entre investigação, parceiros institucionais e mecanismos de implementação que garante eficácia. “O segredo é ser consequente: pilotar as coisas que nós não temos a certeza, testar aquilo que pode ter melhor resultado e, a partir daí, passar para uma escala nacional ou global aquilo que são boas experiências”.