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Comer bem: contas a fazer enquanto se escolhe

Comer bem: contas a fazer enquanto se escolhe

Publicado em 08 de Junho de 2026 at 16:47

Para a família Santos, o orçamento para alimentação é de 350 euros por mês para quatro pessoas. Para os Ferreira, é quase o triplo. Em ambas as casas, o peixe fresco desapareceu do carrinho. Dois retratos de como a inflação alimentar chegou à mesa de cada um.

Carla Santos, 39 anos, assistente operacional numa escola pública, gere as compras de uma família de quatro com um orçamento mensal entre 350 e 400 euros para alimentação. O marido, João, é motorista de distribuição com rendimento variável. Os dois filhos, Tiago, 14 anos, e Inês, 8, completam um agregado onde cada euro conta.

“O preço pesa quase sempre mais, não vale a pena dizer o contrário. Eu tento olhar para a parte da saúde, claro, mas quando se começa a somar tudo, acaba por ser o preço que manda, sobretudo ao fim do mês. Nessas alturas, escolho o que estica mais”, explica Carla.

O peixe fresco foi um dos primeiros a sair do cabaz. Depois os frutos vermelhos, os iogurtes de qualidade superior, a carne de melhor corte. “Acabamos por escolher o mais barato, mesmo sabendo que não é a mesma coisa”, admite João Santos. Nesta família, a estratégia para equilibrar o orçamento passou pela cozinha: sopa feita em quantidade, pratos de forno que rendem dois dias, congelação para evitar desperdício. “Levar comida para o trabalho também faz diferença. Se começamos a comprar almoço fora muitas vezes, nota-se logo”, acrescenta João.

Com mais margem, as mesmas restrições

Sofia Ferreira, 43 anos, é farmacêutica. O marido Miguel, 46, é gestor comercial. Vivem na periferia de Lisboa com quatro filhos entre os 5 e os 16 anos. O orçamento mensal para alimentação ronda os 850 a 1.000 euros. No caso desta família, a pressão é diferente, mas existe.

“Mesmo com um rendimento confortável, sentimos muito a diferença dos preços nos últimos anos”, diz Miguel Ferreira. A família mantém uma alimentação equilibrada, mas foi fazendo ajustes: menos produtos biológicos, menos peixe fresco, menos snacks naturais. “Há produtos que tínhamos como hábito e que agora aparecem muito menos no carrinho.”

Mesmo com formação na área da saúde, Sofia não se livra da confusão dos rótulos. “Há excesso de informação e marketing; muitas embalagens passam uma ideia saudável que não corresponde à composição.” A solução passou pelo planeamento e pela compra em quantidade. “Com quatro filhos, pequenas coisas acumulam muito depressa”, diz Miguel.

Às vezes sinto que para comer mesmo saudável tens de gastar mais e ter mais tempo, e nem sempre temos nenhum dos dois.

O que muda, o que fica

Os dois retratos, com orçamentos muito distintos, apontam para o mesmo movimento: a qualidade cede quando o preço aperta. E o preço aperta para quase toda a gente. A pergunta que Mafalda Rodrigues de Almeida, nutricionista, recebe com mais frequência nas redes sociais traduz essa tensão: como gerir o orçamento quando se quer comer melhor?

“Se olharmos a produtos, podemos gastar mais. Mas se olharmos a ingredientes, conseguimos manter ou até reduzir o valor despendido.” Para quem tem menos de 200 euros mensais, Mafalda não tem dúvidas. Em Lisboa, diz, “acho difícil”, mas não impossível. A condição é estar disposto a mudar: reduzir carne e peixe para uma refeição diária, aumentar as leguminosas, comprar o que está na época, aproveitar os cabazes anti desperdício. “Com isto e cozinhando mais em casa, acho que se consegue”, conclui.