Em janeiro de 2022, o cabaz de 63 bens alimentares essenciais monitorizado pela DECO PROteste custava cerca de 188 euros. Em abril de 2026 chegou aos 259,52 euros, o valor mais elevado desde que o acompanhamento semanal começou. Para muitas famílias portuguesas, a pergunta deixou de ser se devem comer melhor. Passou a ser como.
O Estudo Nacional de Avaliação da Literacia Alimentar em Adultos, realizado pela Pitagórica com o apoio do Continente e da Associação Portuguesa de Nutrição (APN), traçou no início de 2026 o retrato mais completo das competências alimentares dos portugueses. O score global de literacia alimentar fixou-se nos 57,5%, numa escala de zero a cem. Um em cada três adultos fica abaixo dos 50%. O pior resultado regista-se na dimensão do consumo, a que implica transformar o conhecimento em escolhas reais, dia a dia, compra a compra.
“Embora o acesso à informação sobre nutrição seja hoje generalizado, persistem desafios significativos na capacidade de transformar esse conhecimento em práticas alimentares equilibradas”, sublinha Helena Real, secretária-geral da APN. O problema agrava-se entre as famílias com rendimentos mais baixos, as mais expostas à inflação e com menos ferramentas para a contornar.
Inflação à mesa
A inflação alimentar não abrandou. Em 2025, a média europeia fixou-se nos 2,8%, segundo o Eurostat. Mas os números agregados escondem variações brutais em produtos concretos: o chocolate subiu 17,8% na Europa; a carne de vaca e de vitela, 10%; os ovos ultrapassaram os 20% em vários países, incluindo Portugal.
“O maior risco é a transferência de consumo de alimentos mais interessantes do ponto de vista nutricional para opções mais desequilibradas, quando estas são mais económicas”, alerta Helena Real.
A ideia de que comer saudável é inevitavelmente mais caro é, para a secretária-geral da APN, um mito com nuances. “Comer saudável não tem que ser mais caro, sobretudo quando se faz uma seleção criteriosa dos alimentos, escolhendo produtos sazonais, comprados a granel ou menos processados.” O que encarece, esclarece, é a conveniência: os alimentos pré-preparados, descascados, já lavados. O produto em si, na sua forma mais básica, raramente é o mais caro.