Carla Santos, 39 anos, assistente operacional numa escola pública, gere as compras de uma família de quatro com um orçamento mensal entre 350 e 400 euros para alimentação. O marido, João, é motorista de distribuição com rendimento variável. Os dois filhos, Tiago, 14 anos, e Inês, 8, completam um agregado onde cada euro conta.
“O preço pesa quase sempre mais, não vale a pena dizer o contrário. Eu tento olhar para a parte da saúde, claro, mas quando se começa a somar tudo, acaba por ser o preço que manda, sobretudo ao fim do mês. Nessas alturas, escolho o que estica mais”, explica Carla.
O peixe fresco foi um dos primeiros a sair do cabaz. Depois os frutos vermelhos, os iogurtes de qualidade superior, a carne de melhor corte. “Acabamos por escolher o mais barato, mesmo sabendo que não é a mesma coisa”, admite João Santos. Nesta família, a estratégia para equilibrar o orçamento passou pela cozinha: sopa feita em quantidade, pratos de forno que rendem dois dias, congelação para evitar desperdício. “Levar comida para o trabalho também faz diferença. Se começamos a comprar almoço fora muitas vezes, nota-se logo”, acrescenta João.
Com mais margem, as mesmas restrições
Sofia Ferreira, 43 anos, é farmacêutica. O marido Miguel, 46, é gestor comercial. Vivem na periferia de Lisboa com quatro filhos entre os 5 e os 16 anos. O orçamento mensal para alimentação ronda os 850 a 1.000 euros. No caso desta família, a pressão é diferente, mas existe.
“Mesmo com um rendimento confortável, sentimos muito a diferença dos preços nos últimos anos”, diz Miguel Ferreira. A família mantém uma alimentação equilibrada, mas foi fazendo ajustes: menos produtos biológicos, menos peixe fresco, menos snacks naturais. “Há produtos que tínhamos como hábito e que agora aparecem muito menos no carrinho.”
Mesmo com formação na área da saúde, Sofia não se livra da confusão dos rótulos. “Há excesso de informação e marketing; muitas embalagens passam uma ideia saudável que não corresponde à composição.” A solução passou pelo planeamento e pela compra em quantidade. “Com quatro filhos, pequenas coisas acumulam muito depressa”, diz Miguel.