Há quem entre para tomar um café, quem venha conversar, folhear um jornal, escrever ou namorar. Há quem ali faça a aposta do dia. Tudo isto acontece dentro de paredes com quase 500 anos de história, num dos espaços mais emblemáticos de Coimbra. A apresentadora Lara Afonso foi conhecê-lo.
Edifício monumental
“O Café Santa Cruz foi uma antiga igreja construída em 1530 para ser a igreja paroquial aqui da nossa freguesia de Santa Cruz”, explica Vítor Marques, gestor e sócio do café. Fazia parte do Mosteiro de Santa Cruz, fundado em 1131, num estilo manuelino ainda hoje visível na arquitetura do espaço. Classificado como Monumento Nacional em 1911, o edifício teve outras funções ao longo do século XIX, até que, em 1923, abriu o café com o mesmo nome.
Mais de cem anos depois, o espaço continua a ser, para Vítor Marques, muito mais do que um ponto de passagem. “É essa a nossa vontade, que as pessoas possam levar um bocadinho da memória, da sua história e da sua presença aqui no café. Carreguem consigo um bocadinho da sua marca e da sua identidade.”
Ponto de encontro
Pelo Café Santa Cruz passam pessoas muito diferentes, desde turistas, estudantes e habitantes da cidade a quem vem assistir a espetáculos nos teatros próximos. Apesar da diversidade, há um denominador comum: “Acima de tudo, vêm aqui beber um café. Também vêm fazer a sua aposta para o jogo do dia ou para os jogos que existem ao longo da semana”, conta Vítor Marques, referindo-se ao leque de Jogos Santa Casa disponíveis no café, do Totoloto ao Placard, passando pelas Raspadinhas.
Questionado sobre se os sonhos mudam com o tempo, Vítor Marques reconhece que sim, ainda que uma coisa se mantenha inalterada: “a expetativa das pessoas relativamente aos jogos. Quando fazem uma aposta, têm sempre a esperança de ganhar um milhão ou que tenham dentro do Pé-De-Meia aqueles 1500 euros por mês.”
A sorte é da casa
Ao Café Santa Cruz ainda não chegou a sorte grande, mas isso não impede Vítor Marques de valorizar cada vitória, por pequena que seja. “Infelizmente, ainda não atribuímos nenhum grande prémio a qualquer um dos jogos, mas acreditamos que já fizemos muitas pessoas felizes. Às vezes basta ganhar dois euros para vermos a cara de felicidade das pessoas.” No dia em que acontecer, “faz, certamente, a diferença na vida de muitas pessoas.”
Enquanto mediador, deixa uma mensagem para quem ainda não conhece o espaço. “Venham descobrir o Café Santa Cruz, fazer a aposta nos Jogos Santa Casa, seja no Totoloto, acima de tudo no Placard, que é um dos últimos jogos que tem estado a funcionar muito bem, na Raspadinha. Mas, acima de tudo, venham viver, experienciar e vivenciar aquilo que é a história do Café Santa Cruz, nem que seja à volta de um simples café.”
Aqui canta-se o fado
Para além de servir café e validar apostas, o espaço tem um papel ativo na preservação de uma das tradições mais identitárias de Coimbra: o fado. “Desde 2009 que vamos tendo espetáculos de fado de Coimbra com alguma regularidade. Temos publicados já três volumes de CDs de fado de Coimbra, todos cantados pelos artistas que vêm aqui”, conta. “É uma forma de levarmos mais longe algo que faz parte da história e da tradição da nossa cidade.”
A agenda cultural do café não se fica pela música. Ao longo do ano, acolhe lançamentos de livros, tertúlias e exposições, e chegou a servir de palco a gravações de séries e filmes. E há ainda o Crúzio, um doce exclusivo da casa, feito com base numa antiga receita do café, de prova obrigatória.
Vinte mediadores, vinte episódios
Vítor Marques é o sétimo mediador a protagonizar a iniciativa “Histórias de Quem dá Sorte”, uma parceria entre a Medialivre e os Jogos Santa Casa que, ao longo de vinte semanas, percorre o país à procura de mediadores escolhidos entre cinco indicados por distrito. Poucos gerem a sua atividade dentro de um Monumento Nacional, mas todos partilham a missão de acompanhar as emoções e as expectativas de quem tenta a sorte, com responsabilidade.
O Café Santa Cruz integra a rede de mais de 5.000 pontos de venda dos Jogos Santa Casa espalhados pelo país. Em 2025, os Jogos Santa Casa entregaram ao Estado cerca de 870 milhões de euros e 97,3% do valor gerado retornou à sociedade. Mediadores como Vítor Marques dão corpo a essa rede em negócios que, como o Café Santa Cruz, se tornaram parte inseparável da identidade das suas cidades.