A menstruação continua a ser uma das razões que levam algumas raparigas a afastarem-se do desporto. Mas o verdadeiro obstáculo pode estar no tabu que ainda existe à volta deste tema.
Uma dor que não se partilha. Um desconforto que se esconde. O medo de uma mancha na roupa ou de um comentário no balneário. Para muitas raparigas, a experiência da menstruação no desporto ainda é vivida em silêncio.
Segundo o estudo “O Impacto da Confiança Corporal no Desporto”, desenvolvido pela Dove, as “questões do período” continuam a ser uma das principais razões apontadas pelas raparigas para abandonarem a prática desportiva. Contudo, a questão não está apenas no ciclo menstrual. Está na forma como a sociedade, as escolas e os contextos desportivos ainda lidam com o tema.
Os dados do estudo “Desporto e Menstruação”, desenvolvido pela Skip, ajudam a perceber a dimensão deste impacto: 83% das raparigas entre os 14 e os 22 anos já deixaram de fazer alguma atividade do dia a dia por estar menstruada, incluindo ir à praia ou à piscina e praticar atividade física ou desporto. Além disso, 70% admite exercitar-se menos ou deixar mesmo de fazer exercício durante a menstruação, demonstrando que o impacto do período vai muito além do desconforto físico e influencia diretamente os hábitos desportivos.
Quando uma necessidade biológica é acompanhada por vergonha, falta de informação ou ausência de apoio, algo tão natural como menstruar pode transformar-se numa barreira.
Em conversa sobre este tema, Mónica Ferro, diretora do escritório de Londres do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA), agência da ONU dedicada à saúde sexual e reprodutiva e aos direitos das mulheres e das raparigas, refere que “a menstruação continua a ser tratada, em muitas sociedades, como um assunto privado, quase invisível, que deve ser gerido discretamente e sem perturbar o espaço público”.
O desafio está em criar condições para que nenhuma rapariga sinta que tem de escolher entre o seu corpo e o desporto.
Apesar de ser uma experiência natural, a menstruação continua associada a desconforto e constrangimento. Sandra Torres, Raquel Barbosa e Filipa Mucha Vieira, psicólogas da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP), explicam que “apesar de ser uma experiência biológica natural, inerente ao sistema reprodutor feminino, o tema da menstruação continua envolto em silêncio e constrangimento”.
As especialistas identificam três grandes razões para esta realidade: “o peso histórico do tabu”, “a falta de literacia sobre o tema” e “a cultura desportiva ainda moldada por discursos de género”.
Durante muito tempo, o corpo feminino e a menstruação foram encarados como assuntos privados, que deveriam ser geridos sem chamar atenção. Este legado continua presente em muitas conversas familiares, escolares e desportivas.
Os dados do estudo da Skip mostram que este silêncio continua profundamente enraizado: 64% das raparigas entre os 14 e os 22 anos afirmam sentir desconforto em falar abertamente sobre a menstruação.
A falta de informação também contribui para o problema. Como referem as psicólogas da FPCEUP, apesar de o tema fazer parte do currículo escolar, a abordagem é frequentemente “breve e predominantemente biológica”, não sendo suficiente para combater o estigma e promover uma compreensão mais completa.
No desporto, existe ainda um desafio adicional. “Em muitos contextos, falar de menstruação é visto como ‘assunto de mulheres’, irrelevante para o treino ou até sinal de fraqueza”, explicam.
O resultado é que muitas raparigas continuam a lidar sozinhas com dúvidas, desconfortos e receios que poderiam ser ultrapassados com mais informação e diálogo.
Mónica Ferro reforça que o silêncio não desaparece apenas em sociedades mais desenvolvidas. “Mesmo em países com elevados níveis de rendimento e educação, muitas famílias sentem desconforto em falar sobre menstruação e a puberdade com os filhos.”
Para a responsável do UNFPA, “o que falta é normalizar a conversa”, porque “a menstruação não é uma questão marginal nem um problema de nicho”.
A menstruação pode ter impacto na forma como uma atleta se sente e desempenha, mas isso não significa que deva limitar a sua participação.
“As atletas relatam dor física, fadiga, sensação de inchaço, alterações de humor e menor tolerância ao esforço em determinados momentos do ciclo menstrual”, explicam Sandra Torres, Raquel Barbosa e Filipa Mucha Vieira.
Estes sintomas podem influenciar o rendimento, a perceção de competência e o prazer associado ao treino. Mas há também uma dimensão emocional importante.
O medo de fugas menstruais, a preocupação com manchas na roupa, a vergonha de falar sobre o tema ou a ausência de condições adequadas nos balneários podem transformar um espaço que deveria ser positivo num lugar de ansiedade.
Os dados do estudo desenvolvido pela Skip reforçam esta realidade. Duas em cada cinco raparigas admitem faltar a aulas ou treinos por receio de fugas menstruais visíveis e 70% dizem reduzir ou interromper a prática de exercício durante o período. Mais do que um desconforto físico, a menstruação continua, assim, a condicionar a participação desportiva de muitas jovens.
Como explicam as psicólogas, “não é a menstruação em si que afasta as raparigas do desporto, mas a forma como as barreiras sociais e estruturais se impõem à experiência menstrual vivida pelas atletas”.
A falta de comunicação e de apoio pode agravar esta experiência. Comentários inadequados, falta de compreensão por parte de colegas ou treinadores e a ideia de que “é preciso aguentar” contribuem para que algumas jovens se afastem.
Um dos maiores obstáculos continua a ser aquilo em que se acredita, mas que nem sempre corresponde à realidade. O primeiro mito é que “a menstruação é um assunto privado e não se fala no treino”. As psicólogas da FPCEUP explicam que, pelo contrário, não falar sobre o tema pode impedir ajustes simples e aumentar o isolamento das atletas.
O estudo “Desporto e Menstruação”, desenvolvido pela Skip, confirma esta realidade. Entre as raparigas dos 14 aos 22 anos, 43% prefere não falar sobre a menstruação com colegas ou treinadores masculinos. Ainda assim, 34% reconhece valorizar o apoio dos homens nesta fase, mostrando que o problema não é a sua presença, mas a falta de abertura para abordar o tema de forma natural e informada.
Outro mito é que uma atleta deve ignorar o desconforto. “Se és atleta, tens de aguentar e não te queixar” é uma ideia que, segundo as especialistas, reforça a noção de que dor e mal-estar devem ser suportados em silêncio.
Mas “ouvir o corpo é fundamental para prevenir lesões, identificar sinais de patologia e promover saúde a longo prazo”, explicam.
Também continua presente a ideia de que não se deve fazer exercício durante a menstruação. Mas a realidade é diferente: “A atividade física é geralmente segura durante a menstruação e pode até ajudar a reduzir dores menstruais, fadiga e sintomas pré-menstruais”.
E existe ainda um último mito: falar sobre menstruação é uma responsabilidade apenas das mulheres. Para as psicólogas da FPCEUP, excluir treinadores, professores e outros adultos desta conversa mantém o tabu.
Desmistificar a menstruação passa por transformar a forma como se fala dela. Nas escolas, as psicólogas defendem que é fundamental reforçar a educação menstrual, incluindo informação sobre o ciclo, sintomas, diferenças individuais e relação com atividade física.
“Estes conteúdos não se devem restringir à educação sexual, mas também ser abordados nas disciplinas de Ciências e Educação Física, enquadrando a menstruação como uma dimensão normal da saúde e do desenvolvimento humano.”
Nos clubes, a mudança passa pela formação de treinadores e professores. “É necessário dotá-los de conhecimentos e competências para abordar o tema de forma clara, respeitosa e baseada na evidência científica.”
Também são importantes condições práticas: balneários adequados, privacidade e acesso a produtos menstruais.
Mónica Ferro, diretora do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), lembra que “a saúde menstrual está diretamente ligada ao direito à dignidade, à educação, ao trabalho, à saúde e à igualdade de género”.
E defende que falar deste tema exige uma mudança coletiva: “Enquanto não estivermos dispostos a tratar o tema com a mesma naturalidade com que tratamos outras questões de saúde, será difícil avançar à escala necessária.”
Criar uma relação positiva com o desporto passa também por criar uma relação mais tranquila com o próprio corpo.
Pais, professores e treinadores têm um papel essencial. As psicólogas da FPCEUP defendem a importância da “escuta ativa”, da validação das experiências das raparigas e de uma comunicação que não reforce vergonha ou preconceitos.
Os treinadores podem ajudar através de pequenos gestos: estar disponíveis para ouvir, adaptar cargas de treino quando necessário e evitar discursos que associem a menstruação a fragilidade ou menor capacidade. Da mesma forma, colegas – rapazes e raparigas – podem contribuir para criar um ambiente onde falar sobre o período deixe de ser motivo de embaraço e passe a ser encarado como qualquer outra questão relacionada com saúde e bem-estar.
Os dados do estudo “Desporto e Menstruação”, desenvolvido pela Skip, mostram também que seis em cada dez raparigas consideram que a menstruação deve ser encarada como uma parte normal do desporto. Um sinal de que as próprias jovens defendem uma maior normalização da menstruação no contexto desportivo.
A mensagem final é simples: um corpo que menstrua é um corpo capaz. Capaz de correr. De competir. De aprender. De alcançar objetivos.
A menstruação pode ser uma variável a considerar no treino e no bem-estar, mas nunca deve ser uma razão para uma rapariga sentir que não pertence ao desporto.