Há jogos que se ganham no marcador. Outros começam muito antes do apito inicial. Mas nem todos os atletas se mantêm em jogo até ao final. Milhares de jovens estão a abandonar o desporto, não por falta de talento, mas por falta de confiança no próprio corpo.
“Estás mais gordinha!”, “Estás tão magra! Tens algum problema?”, “És demasiado baixa para jogar basquete!”, “Uma rapariga a jogar futebol?”, “Mas podes fazer desporto quando estás com o período?”. A lista poderia continuar. Sejamos mais ou menos jovens, todos nós já ouvimos comentários deste tipo em alguma altura da vida. E como reagimos?
Segundo o estudo Dove “Impacto da Confiança Corporal e Autoestima na prática desportiva dos jovens” realizado a jovens portugueses entre os 10 e os 17 anos, uma em cada três raparigas e um em cada quatro rapazes desistem do desporto durante a adolescência. Aos 13 anos, a taxa de desistência das raparigas é o dobro da dos rapazes, atingindo o nível máximo aos 17 anos, com 60% de desistência.
Os números do estudo mostram que a confiança corporal é um dos principais motivos de abandono desportivo, sobretudo entre os mais novos: 7 em cada 10 raparigas referem questões relacionadas com a baixa confiança corporal e a menstruação. Entre os rapazes, sete em cada 10 também identificam a relação com o próprio corpo como um fator determinante para abandonar o desporto.
O problema não se limita ao rendimento físico. Muitas vezes, começa nos comentários, nos olhares ou nas comparações constantes. O medo do julgamento dos outros, o desconforto com as roupas de desporto, as críticas e até a discriminação de género aparecem entre os fatores mais apontados pelos jovens, em particular, pelas raparigas. De acordo com o estudo Dove, uma em cada duas jovens desiste por influência de comentários negativos.
No manifesto, protagonizado pela judoca Patrícia Sampaio, medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Paris 2024, a atleta refere que houve momentos em que sentiu que o seu corpo “não era o certo, não era suficiente ou era demais”, mas foi também o corpo que a levou a alcançar os objetivos e que a “ensinou a continuar”. O facto de ser judoca olímpica não aconteceu “apesar do corpo”, mas sim, “por causa do corpo” que tem. Numa mensagem de encorajamento , reforço da confiança e da autoestima, Patrícia Sampaio conclui: “O teu corpo não é um obstáculo, é o que te permite fazer coisas incríveis. Por isso, não pares.”
Este manifesto liga-se à campanha “Dove Confiante no Desporto” lançada em Portugal no dia 23 de maio, que reforça a ideia de que o desporto deve ser um espaço de crescimento, liberdade e autoestima, e não um lugar de julgamento.
Se o desporto pode ser um lugar de pressão, também pode – e deve – ser um espaço de proteção. O estudo Dove revela que professores de Educação Física e treinadores têm um impacto direto na forma como os jovens se sentem em relação ao próprio corpo. Entre as raparigas que desistiram do desporto, três em cada cinco identifica professores de Educação Física e treinadores como os principais responsáveis pelas chamadas “conversas sobre o corpo”. Nos rapazes, nove em cada dez apontam igualmente esses agentes como influenciadores importantes.
Isso significa que palavras aparentemente inofensivas podem ter consequências profundas. Um comentário sobre peso, forma física ou aparência pode ficar muito mais tempo na memória de um jovem do que qualquer resultado competitivo. E o impacto pode ser devastador. Porque quando um jovem começa a olhar para o corpo apenas como algo a ser avaliado esteticamente, perde-se uma parte essencial da experiência desportiva: o prazer de jogar, correr, aprender e evoluir.
O estudo mostra também que modalidades como futebol, voleibol e basquetebol são as mais abandonadas pelas raparigas, enquanto futebol, voleibol e andebol lideram entre os rapazes.
Tendo em conta que 13% das raparigas pratica apenas o desporto escolar – o que significa que 87% pratica atividade física ou outra modalidade fora da escola –, importa salientar a importância de um bom ambiente dentro ou fora do recinto escolar e o papel que professores, treinadores e pais podem ter para que as raparigas se sintam acolhidas, respeitadas e compreendidas de forma a sentirem-se bem para continuar a praticar desporto, em vez de desistirem.
A adolescência é, por natureza, um período de mudança. O corpo transforma-se, a pressão social aumenta e as redes sociais intensificam comparações difíceis de ignorar. Segundo o Guia Crescer com Confiança , do Projeto pela Autoestima de Dove , quatro em cada cinco raparigas admitem comparar a sua aparência com aquilo que veem nas redes sociais. Muitas sentem que precisam de filtros, edição ou aprovação externa para se sentirem confiantes.
O guia deixa recomendações concretas para ajudar crianças e adolescentes a desenvolver uma autoestima saudável. Uma das principais passa por mudar o foco: valorizar menos a aparência e mais aquilo que o corpo consegue fazer.
Em vez de elogios centrados apenas no aspeto físico, o Guia Crescer com Confiança sugere reforçar qualidades como coragem, criatividade, persistência ou espírito de equipa. Celebrar aquilo que o corpo permite viver – correr, saltar, abraçar, descansar, recuperar – ajuda os jovens a criarem uma relação mais positiva consigo próprios.
Outra recomendação importante passa por reduzir o chamado “body talk”: comentários negativos sobre o próprio corpo, muitas vezes normalizados entre adultos e jovens. Segundo o guia, até pequenas frases aparentemente inocentes podem alimentar inseguranças e reforçar padrões irrealistas.
Para os pais, o conselho é claro: dar o exemplo. Crianças e adolescentes observam constantemente a forma como os adultos falam sobre si próprios. Quando um pai ou mãe critica repetidamente o próprio corpo, pode estar, sem querer, a ensinar insegurança.
O guia sugere ainda estratégias práticas: incentivar pausas nas redes sociais, ajudar os jovens a identificar conteúdos tóxicos, promover conversas abertas sobre autoestima e criar hábitos simples de valorização pessoal. Um exercício recomendado é pedir às crianças que identifiquem diariamente algo de que gostam em si mesmas, não apenas fisicamente, mas também nas suas capacidades, personalidade ou conquistas.
Não basta apontar o problema, é preciso encontrar soluções. Foi precisamente a pensar numa forma de apoiar tanto as atletas como os treinadores que Dove criou o programa “Confiante no Desporto” que se destina a “a qualquer pessoa que se movimente de uma forma que a faça sentir-se confortável e confiante, seja qual for a idade, género, tipo de corpo ou habilidade”, porque “qualquer pessoa pode ser atleta”. Este programa é orientado para professores de Educação Física e treinadores e tem como objetivo ajudar a proporcionar aos jovens, com especial foco nas raparigas, “o conhecimento e as competências necessárias para se sentirem confiantes com o seu corpo, enquanto praticam desporto”, ao mesmo tempo que os ajuda a criarem um ambiente que promove uma imagem corporal positiva para as atletas.
O programa “Confiante no Desporto” foi desenvolvido, em conjunto, pelas marcas Dove e Nike, em parceria com investigadores e especialistas de renome mundial – como o Centre for Appearance Research e o Tucker Center for Research on Girls & Women in Sport – e inclui contributos de raparigas e treinadores de seis países, incluindo França, Índia, Japão, México, Reino Unido e Estados Unidos. Tem também o apoio de organizações globais como World Gymnastics, Fifa e Laureus Sport for Good.
Porque há batalhas que não aparecem nas estatísticas nem nos resultados finais. E porque, para muitas jovens, continuar em jogo começa por acreditarem que são suficientes tal como são. 7 em 10 raparigas que desistem do desporto são criticados pelo seu tipo de corpo. Mas, com o apoio e as ferramentas certas, o que fala mais alto é a alegria de continuar.