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Porque é que tantas raparigas abandonam o desporto? E o que as ajuda a continuar?

Há cada vez mais raparigas a desistir de praticar desporto. Trabalhar a confiança corporal pode ser o fator decisivo que as faz continuar.

Uma em cada três raparigas desiste do desporto durante a adolescência. Dos 10 aos 13 anos, a taxa de abandono é o dobro da registada entre os rapazes. Entre os 9 e os 13 anos, a confiança corporal surge como uma das principais razões para essa desistência. E para muitas adolescentes, o problema não começa no treino, mas na forma como se sentem dentro do próprio corpo.

Os dados fazem parte do estudo “Impacto da Confiança Corporal e Autoestima na prática desportiva dos jovens portugueses”, desenvolvido no âmbito do Projeto pela Autoestima da Dove, que procurou compreender os fatores que levam adolescentes portugueses a desistirem da prática desportiva.

Segundo o estudo, as razões mais apontadas pelas raparigas para deixarem o desporto estão relacionadas com a menstruação (71%), a baixa confiança corporal (68%), deixar de gostar ou sentir prazer (56%), o medo do julgamento dos outros (49%) e o ambiente excessivamente competitivo (49%). O impacto dos comentários negativos sobre o corpo – o chamado body talk – também surge com peso relevante: 38% das adolescentes identificam-no como um fator importante na desistência.

Mais do que falta de motivação, os dados apontam para uma experiência emocional e social mais complexa.

O que está realmente por trás da desistência

Sandra Torres, Filipa Vieira e Raquel Barbosa, psicólogas da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP), que participaram na validação, adaptação e implementação do programa Dove “Eu Confiante”, em Portugal, explicam que “o abandono do desporto não resulta apenas de perda de interesse, mas de um contexto físico, emocional e social que pode não ser vivido como seguro e positivo para muitas adolescentes”.

As especialistas sublinham que muitas das dificuldades relatadas pelas raparigas “não estão relacionadas com o desporto em si, mas sobretudo com a forma como experienciam o ambiente desportivo”.

“A adolescência é uma fase em que existe uma maior focalização no corpo e uma maior sensibilidade ao olhar e à opinião dos outros. Neste contexto, o desporto pode tornar-se uma situação de elevada exposição corporal e social para muitas adolescentes”, afirmam.

Essa sensação manifesta-se em experiências concretas. “Não é raro surgirem relatos de raparigas que evitam participar nas aulas de Educação Física ou nos treinos porque sentem que estão a ser observadas, avaliadas ou comparadas.”

Entre as situações mais frequentes surgem comentários relacionados com peso e aparência física, ouvir que “não têm o corpo certo” para determinada modalidade ou comentários sexualizados sobre a aparência.

Embora muitas vezes sejam desvalorizados como brincadeiras, os efeitos podem ser profundos. Tal como alertam as psicólogas da FPCEUP, “quando o foco deixa de estar no prazer, no movimento ou na competência e passa a estar na aparência e no julgamento social, o desporto passa a ser vivido como um espaço de ansiedade e embaraço, aumentando o risco de desistência”.

O momento mais crítico acontece cedo

Os 13 anos surgem como uma idade particularmente sensível. O estudo mostra que é neste momento que a taxa de desistência feminina atinge valores muito superiores aos dos rapazes.

“As mudanças físicas associadas à puberdade” ajudam a explicar esta fase mais delicada, referem as psicólogas. Essas alterações “envolvem alterações no peso, composição corporal e distribuição da gordura corporal, sendo frequentemente percecionadas pelas raparigas como distantes dos padrões de beleza feminina socialmente valorizados”.

As especialistas acrescentam que, “quando existe uma forte internalização dos ideais de beleza, aumenta a probabilidade de surgirem pensamentos e sentimentos negativos em relação ao corpo, bem como o evitamento de situações em que este fica mais exposto”.

O contexto desportivo pode tornar-se particularmente desafiante porque implica “visibilidade corporal, seja através do vestuário, do movimento ou da exposição perante os outros”.

Ainda assim, os dados mostram que o abandono continua a aumentar entre os 15 e os 17 anos. Nesta fase, “trajetórias de insatisfação corporal tendem a intensificar-se”, ao mesmo tempo que “muitas modalidades se tornam mais competitivas e exigentes”, podendo levar algumas adolescentes a sentirem que “não são suficientemente competentes ou adequadas àquele contexto”.

Redes sociais, comparação e pressão constante

As redes sociais têm também um impacto relevante nesta relação com o corpo e com o desporto.

Segundo as psicólogas da FPCEUP, “as redes sociais amplificam a comparação social e reforçam a ideia de que existe um ‘corpo ideal’ para praticar desporto”. Muitas raparigas “passam a comparar o seu corpo, aparência ou capacidade física com imagens altamente selecionadas, editadas e frequentemente pouco representativas”.

O estudo mostra ainda que 55% das raparigas sentem que o desporto feminino continua a ter pouca representação nos media e nas redes sociais quando comparado com o masculino.

No Guia Crescer com Confiança, do programa “Eu Confiante”, que integra o Projeto pela Autoestima da Dove, surgem também vários dados que ajudam a compreender este impacto digital. Quatro em cada cinco raparigas admitem comparar a própria aparência com outras pessoas nas redes sociais. Já 56% afirmam sentir que não conseguem corresponder aos padrões de beleza projetados online.

O guia alerta ainda para o efeito dos filtros, da edição de imagem e dos conteúdos associados a tendências como “#Fitspo” ou “#Thinspo”, que promovem padrões físicos limitados e pouco realistas. Segundo o documento, apenas 10 minutos de exposição a este tipo de conteúdos podem diminuir a confiança corporal, a autoestima e o humor.

Entre as recomendações práticas do Guia Crescer com Confiança está incentivar conversas sobre manipulação digital de imagens, reduzir a comparação social e ajudar os jovens a seguir conteúdos mais diversos, positivos e menos centrados na aparência física.

O que é a confiança corporal e como se constrói

“A confiança corporal resulta da forma como a pessoa se sente, pensa e relaciona com o seu corpo”, explicam as psicólogas Sandra Torres, Filipa Vieira e Raquel Barbosa.

As especialistas sublinham que esta confiança “não depende apenas da aparência física, mas também da capacidade de aceitar e respeitar o corpo, valorizar aquilo que o corpo consegue fazer, cuidar dele e desenvolver mecanismos que permitam lidar com a pressão para seguir padrões estereotipados de beleza”.

Promover uma visão mais funcional do corpo é uma das recomendações centrais do Guia Crescer com Confiança. O guia sugere, por exemplo, que pais, professores e treinadores incentivem conversas focadas naquilo que o corpo permite fazer – correr, saltar, dançar, aprender, descansar – em vez de centrar constantemente a atenção na aparência.

O documento alerta também para a importância de reduzir comentários sobre peso, forma física ou imagem corporal no dia a dia. Mesmo comentários aparentemente positivos podem reforçar padrões de comparação e insegurança.

Segundo as psicólogas da FPCEUP, “pais, professores e treinadores poderão dar um importante contributo ao criar ambientes seguros, reduzir comentários focados na aparência, evitar comparações, valorizar o esforço e o prazer na prática desportiva, e promover sentimentos de competência e inclusão”.

O que ajuda as raparigas a continuar

Apesar dos desafios, muitas adolescentes continuam ligadas ao desporto e o estudo mostra porquê.

“Mesmo com inseguranças em relação ao corpo, muitas adolescentes mantêm a prática desportiva porque reconhecem nela uma experiência positiva, associada ao prazer e à socialização”, explicam Sandra Torres, Filipa Vieira e Raquel Barbosa.

Os dados revelam ainda que encontrar modalidades com que se identifiquem, percecionar o desporto como menos competitivo e reconhecer benefícios físicos e psicológicos associados à atividade física favorecem a permanência.

Além disso, o próprio desporto pode ajudar a fortalecer a relação com o corpo. “Curiosamente, o desporto pode também desempenhar um papel protetor face a estas inseguranças, ao promover melhorias na condição física e aumentando a satisfação com a aparência”, referem as psicólogas da FPCEUP.

E concluem: “A confiança corporal não é apenas um fator que facilita a prática desportiva; pode também ser fortalecida e construída através dela.”

O papel ativo de Dove

É neste contexto que surge o Projeto pela Autoestima Dove, com os programas “Eu Confiante” e “Confiante No Desporto”, desenvolvido em Portugal através de uma parceria entre a Dove, a EPIS – Empresários pela Inclusão Social e a Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP).

O objetivo passa por disponibilizar ferramentas e recursos que promovam a autoestima, confiança corporal e ambientes mais positivos para crianças e jovens.

Porque permanecer no desporto não depende apenas da motivação individual. Depende também da forma como os jovens aprendem a relacionar-se com o próprio corpo e do ambiente que encontram.