{"id":119,"date":"2026-06-26T15:52:04","date_gmt":"2026-06-26T14:52:04","guid":{"rendered":"https:\/\/bs.xl.pt\/mantem-te-em-jogo\/?p=119"},"modified":"2026-06-26T15:52:05","modified_gmt":"2026-06-26T14:52:05","slug":"porque-e-que-tantas-raparigas-abandonam-o-desporto-e-o-que-as-ajuda-a-continuar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bs.xl.pt\/mantem-te-em-jogo\/conteudos\/porque-e-que-tantas-raparigas-abandonam-o-desporto-e-o-que-as-ajuda-a-continuar\/","title":{"rendered":"Porque \u00e9 que tantas raparigas abandonam o desporto? E o que as ajuda a continuar?"},"content":{"rendered":"\n<p>Uma em cada tr\u00eas raparigas desiste do desporto durante a adolesc\u00eancia. Dos 10 aos 13 anos, a taxa de abandono \u00e9 o dobro da registada entre os rapazes. <strong>Entre os 9 e os 13 anos, a confian\u00e7a corporal surge como uma das principais raz\u00f5es para essa desist\u00eancia<\/strong>. E para muitas adolescentes, o problema n\u00e3o come\u00e7a no treino, mas na forma como se sentem dentro do pr\u00f3prio corpo.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dados fazem parte do <strong>estudo \u201cImpacto da Confian\u00e7a Corporal e Autoestima na pr\u00e1tica desportiva dos jovens portugueses\u201d<\/strong>, desenvolvido no \u00e2mbito do Projeto pela Autoestima da Dove, que procurou compreender os fatores que levam adolescentes portugueses a desistirem da pr\u00e1tica desportiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o estudo, as raz\u00f5es mais apontadas pelas raparigas para deixarem o desporto est\u00e3o relacionadas com a <strong>menstrua\u00e7\u00e3o (71%), a baixa confian\u00e7a corporal (68%), deixar de gostar ou sentir prazer (56%), o medo do julgamento dos outros (49%) e o ambiente excessivamente competitivo (49%)<\/strong>. O impacto dos coment\u00e1rios negativos sobre o corpo \u2013 o chamado <em>body talk<\/em> \u2013 tamb\u00e9m surge com peso relevante: 38% das adolescentes identificam-no como um fator importante na desist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais do que falta de motiva\u00e7\u00e3o, os dados apontam para uma experi\u00eancia emocional e social mais complexa.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O que est\u00e1 realmente por tr\u00e1s da desist\u00eancia<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Sandra Torres, Filipa Vieira e Raquel Barbosa, psic\u00f3logas da Faculdade de Psicologia e de Ci\u00eancias da Educa\u00e7\u00e3o da Universidade do Porto (FPCEUP), que participaram na valida\u00e7\u00e3o, adapta\u00e7\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o do programa Dove \u201cEu Confiante\u201d, em Portugal, explicam que \u201co abandono do desporto n\u00e3o resulta apenas de perda de interesse, mas de um contexto f\u00edsico, emocional e social que pode n\u00e3o ser vivido como seguro e positivo para muitas adolescentes\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>As especialistas sublinham que muitas das dificuldades relatadas pelas raparigas \u201cn\u00e3o est\u00e3o relacionadas com o desporto em si, mas sobretudo com a forma como experienciam o ambiente desportivo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA adolesc\u00eancia \u00e9 uma fase em que existe uma maior focaliza\u00e7\u00e3o no corpo e uma maior sensibilidade ao olhar e \u00e0 opini\u00e3o dos outros. Neste contexto, o desporto pode tornar-se uma situa\u00e7\u00e3o de elevada exposi\u00e7\u00e3o corporal e social para muitas adolescentes\u201d, afirmam.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa sensa\u00e7\u00e3o manifesta-se em experi\u00eancias concretas. \u201cN\u00e3o \u00e9 raro surgirem relatos de raparigas que evitam participar nas aulas de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica ou nos treinos porque sentem que est\u00e3o a ser observadas, avaliadas ou comparadas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Entre as situa\u00e7\u00f5es mais frequentes surgem coment\u00e1rios relacionados com peso e apar\u00eancia f\u00edsica, ouvir que \u201cn\u00e3o t\u00eam o corpo certo\u201d para determinada modalidade ou coment\u00e1rios sexualizados sobre a apar\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora muitas vezes sejam desvalorizados como brincadeiras, os efeitos podem ser profundos. Tal como alertam as psic\u00f3logas da FPCEUP, \u201cquando o foco deixa de estar no prazer, no movimento ou na compet\u00eancia e passa a estar na apar\u00eancia e no julgamento social, o desporto passa a ser vivido como um espa\u00e7o de ansiedade e embara\u00e7o, aumentando o risco de desist\u00eancia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O momento mais cr\u00edtico acontece cedo<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Os 13 anos surgem como uma idade particularmente sens\u00edvel. O estudo mostra que \u00e9 neste momento que a taxa de desist\u00eancia feminina atinge valores muito superiores aos dos rapazes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAs mudan\u00e7as f\u00edsicas associadas \u00e0 puberdade\u201d ajudam a explicar esta fase mais delicada, referem as psic\u00f3logas. Essas altera\u00e7\u00f5es \u201cenvolvem altera\u00e7\u00f5es no peso, composi\u00e7\u00e3o corporal e distribui\u00e7\u00e3o da gordura corporal, sendo frequentemente percecionadas pelas raparigas como distantes dos padr\u00f5es de beleza feminina socialmente valorizados\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>As especialistas acrescentam que, \u201cquando existe uma forte internaliza\u00e7\u00e3o dos ideais de beleza, aumenta a probabilidade de surgirem pensamentos e sentimentos negativos em rela\u00e7\u00e3o ao corpo, bem como o evitamento de situa\u00e7\u00f5es em que este fica mais exposto\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O contexto desportivo pode tornar-se particularmente desafiante porque implica \u201cvisibilidade corporal, seja atrav\u00e9s do vestu\u00e1rio, do movimento ou da exposi\u00e7\u00e3o perante os outros\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda assim, os dados mostram que o abandono continua a aumentar entre os 15 e os 17 anos. Nesta fase, \u201ctrajet\u00f3rias de insatisfa\u00e7\u00e3o corporal tendem a intensificar-se\u201d, ao mesmo tempo que \u201cmuitas modalidades se tornam mais competitivas e exigentes\u201d, podendo levar algumas adolescentes a sentirem que \u201cn\u00e3o s\u00e3o suficientemente competentes ou adequadas \u00e0quele contexto\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Redes sociais, compara\u00e7\u00e3o e press\u00e3o constante<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>As redes sociais t\u00eam tamb\u00e9m um impacto relevante nesta rela\u00e7\u00e3o com o corpo e com o desporto.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo as psic\u00f3logas da FPCEUP, \u201cas redes sociais amplificam a compara\u00e7\u00e3o social e refor\u00e7am a ideia de que existe um \u2018corpo ideal\u2019 para praticar desporto\u201d. Muitas raparigas \u201cpassam a comparar o seu corpo, apar\u00eancia ou capacidade f\u00edsica com imagens altamente selecionadas, editadas e frequentemente pouco representativas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O estudo mostra ainda que <strong>55% das raparigas sentem que o desporto feminino continua a ter pouca representa\u00e7\u00e3o<\/strong> nos <em>media<\/em> e nas redes sociais quando comparado com o masculino.<\/p>\n\n\n\n<p>No <em>Guia Crescer com Confian\u00e7a<\/em>, do programa \u201cEu Confiante\u201d, que integra o Projeto pela Autoestima da Dove, surgem tamb\u00e9m v\u00e1rios dados que ajudam a compreender este impacto digital. Quatro em cada cinco raparigas admitem comparar a pr\u00f3pria apar\u00eancia com outras pessoas nas redes sociais. J\u00e1 <strong>56% afirmam sentir que n\u00e3o conseguem corresponder aos padr\u00f5es de beleza projetados <em>online<\/em><\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>O guia alerta ainda para o efeito dos filtros, da edi\u00e7\u00e3o de imagem e dos conte\u00fados associados a tend\u00eancias como \u201c#Fitspo\u201d ou \u201c#Thinspo\u201d, que promovem padr\u00f5es f\u00edsicos limitados e pouco realistas. Segundo o documento, apenas 10 minutos de exposi\u00e7\u00e3o a este tipo de conte\u00fados podem diminuir a confian\u00e7a corporal, a autoestima e o humor.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre as recomenda\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas do <em>Guia Crescer com Confian\u00e7a<\/em> est\u00e1 incentivar conversas sobre manipula\u00e7\u00e3o digital de imagens, reduzir a compara\u00e7\u00e3o social e ajudar os jovens a seguir conte\u00fados mais diversos, positivos e menos centrados na apar\u00eancia f\u00edsica.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O que \u00e9 a confian\u00e7a corporal e como se constr\u00f3i<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>\u201cA confian\u00e7a corporal resulta da forma como a pessoa se sente, pensa e relaciona com o seu corpo\u201d, explicam as psic\u00f3logas Sandra Torres, Filipa Vieira e Raquel Barbosa.<\/p>\n\n\n\n<p>As especialistas sublinham que esta confian\u00e7a \u201cn\u00e3o depende apenas da apar\u00eancia f\u00edsica, mas tamb\u00e9m da capacidade de aceitar e respeitar o corpo, valorizar aquilo que o corpo consegue fazer, cuidar dele e desenvolver mecanismos que permitam lidar com a press\u00e3o para seguir padr\u00f5es estereotipados de beleza\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Promover uma vis\u00e3o mais funcional do corpo \u00e9 uma das recomenda\u00e7\u00f5es centrais do <em>Guia Crescer com Confian\u00e7a<\/em>. O guia sugere, por exemplo, que pais, professores e treinadores incentivem conversas focadas naquilo que o corpo permite fazer \u2013 correr, saltar, dan\u00e7ar, aprender, descansar \u2013 em vez de centrar constantemente a aten\u00e7\u00e3o na apar\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>O documento alerta tamb\u00e9m para a import\u00e2ncia de reduzir coment\u00e1rios sobre peso, forma f\u00edsica ou imagem corporal no dia a dia. Mesmo coment\u00e1rios aparentemente positivos podem refor\u00e7ar padr\u00f5es de compara\u00e7\u00e3o e inseguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo as psic\u00f3logas da FPCEUP, \u201cpais, professores e treinadores poder\u00e3o dar um importante contributo ao criar ambientes seguros, reduzir coment\u00e1rios focados na apar\u00eancia, evitar compara\u00e7\u00f5es, valorizar o esfor\u00e7o e o prazer na pr\u00e1tica desportiva, e promover sentimentos de compet\u00eancia e inclus\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O que ajuda as raparigas a continuar<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Apesar dos desafios, muitas adolescentes continuam ligadas ao desporto e o estudo mostra porqu\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMesmo com inseguran\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o ao corpo, muitas adolescentes mant\u00eam a pr\u00e1tica desportiva porque reconhecem nela uma experi\u00eancia positiva, associada ao prazer e \u00e0 socializa\u00e7\u00e3o\u201d, explicam Sandra Torres, Filipa Vieira e Raquel Barbosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dados revelam ainda que encontrar modalidades com que se identifiquem, percecionar o desporto como menos competitivo e reconhecer benef\u00edcios f\u00edsicos e psicol\u00f3gicos associados \u00e0 atividade f\u00edsica favorecem a perman\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, o pr\u00f3prio desporto pode ajudar a fortalecer a rela\u00e7\u00e3o com o corpo. \u201cCuriosamente, o desporto pode tamb\u00e9m desempenhar um papel protetor face a estas inseguran\u00e7as, ao promover melhorias na condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica e aumentando a satisfa\u00e7\u00e3o com a apar\u00eancia\u201d, referem as psic\u00f3logas da FPCEUP.<\/p>\n\n\n\n<p>E concluem: \u201cA confian\u00e7a corporal n\u00e3o \u00e9 apenas um fator que facilita a pr\u00e1tica desportiva; pode tamb\u00e9m ser fortalecida e constru\u00edda atrav\u00e9s dela.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O papel ativo de Dove<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>\u00c9 neste contexto que surge o Projeto pela Autoestima Dove, com os programas \u201cEu Confiante\u201d e \u201cConfiante No Desporto\u201d, desenvolvido em Portugal atrav\u00e9s de uma parceria entre a Dove, a EPIS \u2013 Empres\u00e1rios pela Inclus\u00e3o Social e a Faculdade de Psicologia e de Ci\u00eancias da Educa\u00e7\u00e3o da Universidade do Porto (FPCEUP).<\/p>\n\n\n\n<p>O objetivo passa por disponibilizar ferramentas e recursos que promovam a autoestima, confian\u00e7a corporal e ambientes mais positivos para crian\u00e7as e jovens.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque permanecer no desporto n\u00e3o depende apenas da motiva\u00e7\u00e3o individual. Depende tamb\u00e9m da forma como os jovens aprendem a relacionar-se com o pr\u00f3prio corpo e do ambiente que encontram.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 cada vez mais raparigas a desistir de praticar desporto. 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