Fruta feia ganha nova vida
Projetos como a Zidra mostram como é possível combater o desperdício alimentar através da criação de novos produtos com valor económico. Tema esteve em debate no fórum do Prémio Intermarché Produção Nacional.
Projetos como a Zidra mostram como é possível combater o desperdício alimentar através da criação de novos produtos com valor económico. Tema esteve em debate no fórum do Prémio Intermarché Produção Nacional.
O combate ao desperdício alimentar é uma oportunidade de criação de valor económico, desde a produção ao consumo, defenderam a produtora Ana Lebre e Paula Nunes da Silva, em representação da organização ambiental Quercus, ouvidas na conversa do Prémio Intermarché Produção Nacional, em Santarém, dedicada à sustentabilidade no setor agroalimentar.
Para Paula Nunes da Silva, a análise da sustentabilidade assenta em três dimensões indissociáveis: económica, social e ambiental. O problema do desperdício alimentar surge desde a origem, porque cada produto agrícola implica um investimento significativo em água, nutrientes do solo, energia e mão de obra, sem retorno económico quando não chega ao mercado. “Se desperdiçamos o produto logo no início, estamos a abdicar de todo o investimento para produzir esse alimento e falamos de muitos recursos. Esse investimento tem valor económico. Por isso, a existência de projetos que constituam uma alternativa para estes subprodutos é importante”, frisa a representante da Quercus.
As exigências estéticas das grandes superfícies comerciais, que privilegiam produtos visualmente perfeitos, constituem também um “bloqueio económico”, ao excluírem uma parte considerável da produção. Este entrave agrava o desperdício alimentar, segundo Paula Nunes da Silva, que apela à consciencialização para o valor destes produtos. “São tão bons nutricionalmente como os outros e podem apresentar-se mais atrativos no preço. Falamos de educação, consciencialização e sensibilização, mas também de diferenciação. Uma superfície comercial que opte por este tipo de iniciativas até pode ganhar vantagem junto dos consumidores. Provavelmente nem é preciso um grande esforço de comunicação junto dos clientes, bastando iniciativas de sensibilização.”
Quando Portugal enfrenta custos de produção mais elevados face a outros países, nomeadamente Espanha, essa diferenciação torna-se ainda mais relevante.
“Temos produtos com mais sabor e qualidade devido à nossa orografia e clima”, salienta a especialista da Quercus. Apesar das vantagens da integração na União Europeia, sobretudo ao nível da regulamentação e certificação, persistem desafios na competitividade externa e na adaptação às especificidades nacionais. “Pertencermos à União Europeia é vantajoso, porque beneficiamos de um quadro de regulamentação e certificação. Mas na política agrícola comum, Portugal deveria ter negociado segundo as especificidades do nosso clima, da nossa orografia e de particularidades que dão, por outro lado, mais sabor, mais qualidade aos produtos.”
A nível local, as dificuldades estendem-se à gestão de resíduos, ainda desigual no território. Municípios com boas práticas coexistem com outros que ficam aquém das metas. De acordo com Paula Nunes da Silva, cerca de 30% do lixo poderia ser encaminhado para compostagem, contribuindo para a melhoria da qualidade dos solos, frequentemente pobres em nutrientes.
Projetos como a bebida Zidra, distinguida na última edição do Prémio Intermarché Produção Nacional, então na categoria Produtos Transformados, surgem como resposta concreta ao desperdício alimentar. Representada por Ana Lebre, nutricionista, a iniciativa nasceu da necessidade de valorizar fruta rejeitada pelo mercado.
“Tivemos de olhar para a fruta desperdiçada de forma diferente”, explica Ana Lebre. A solução passou pela criação de uma bebida fermentada, sem açúcar e aditivos, produzida a partir de romãs “feias e pequeninas”, sem valor comercial. O resultado é um exemplo de upcycling alimentar, ao transformar excedentes em produtos de valor acrescentado. “Não faz sentido que uma fruta com o mesmo valor nutricional tenha um preço inferior apenas pela aparência”, defende a nutricionista.
O projeto já inclui novos sabores – maçã, figo-da-índia e maracujá –, através de parcerias com produtores que enfrentavam as mesmas dificuldades em escoar os seus produtos. “Seria um erro descartar um fruto que mantém as suas características nutricionais”, reforça Ana Lebre, sublinhando que fatores como o tempo após a colheita ou a exposição à luz afetam apenas o valor comercial.
Na Zidra, o aproveitamento é praticamente total. As cascas são utilizadas para alimentação animal, as sementes seguem para a produção de óleos cosméticos e estão em curso negociações para a utilização de fibras na indústria têxtil. O compromisso da Quinta do Tojal, em Alvaiázere, está relacionado com a sustentabilidade, o que acabou por tornar as Zidras num produto inovador.