Este site usa cookies para melhorar a navegação. Ao navegar no website concorda com o seu uso. Para saber mais leia a nossa Política de Cookies.

Saúde e Alterações Climáticas

O futuro da saúde ligado ao clima: dos mosquitos à poluição do ar

A poluição do ar e as temperaturas extremas estão a alterar o perfil das doenças e a aumentar os riscos para a saúde pública. Especialistas alertaram para o impacto das alterações climáticas em doenças respiratórias, infecciosas e cardiovasculares e nos desafios do sistema de saúde, na Conferência Saúde e Alterações Climáticas, organizada pela Multicare.

O futuro da saúde ligado ao clima: dos mosquitos à poluição do ar

O cientista brasileiro Paulo Artaxo transportou a plateia para um “cenário crítico”

Cheias, incêndios de grande dimensão, poeiras no ar, tempestades violentas: “É a própria natureza do risco que está a mudar”, como sintetizou Rogério Campos Henriques, CEO da Fidelidade, na sessão de boas-vindas da Conferência sobre Saúde e Alterações Climáticas, organizada pela seguradora de saúde líder em Portugal, a Multicare, do Grupo Fidelidade, e que decorreu no TIC – Técnico Innovation Center, powered by Fidelidade, em Lisboa.

O tema não podia ser mais premente em Portugal, com o país ainda devastado pelos efeitos do comboio de tempestades iniciado pela Kristin, em finais de janeiro. Como sublinhou Rogério Campos Henriques, é preciso “antecipar a resposta”, apostar mais na “medicina preventiva” e ter maior articulação entre as seguradoras, a academia e os setores público e privado da saúde.

Na sua intervenção, o cientista brasileiro Paulo Artaxo transportou-nos para um “cenário crítico”. “Hoje estamos a emitir 57 biliões de toneladas de gases de efeito estufa para a atmosfera”, sendo que “85% das emissões de CO2 para a atmosfera é pela queima de combustíveis fósseis”, alertou o professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo.

Os últimos modelos do IPCC – Intergovernmental Panel on Climate Change mostram num futuro próximo “um aumento de 2,8 graus Celsius a nível global de temperatura média”, com impactos que já estão à vista: “Aumento de incêndios florestais, tempestades e inundações.”

Em Portugal, estamos atualmente no aumento de 1,4 graus Celsius para a região de Lisboa. O cientista recordou que a temperatura máxima em Portugal já chegou a 47,7 graus Celsius no verão (em 2003, na Amareleja).

A vulnerabilidade das populações é evidente. As mudanças do clima acentuam a desigualdade social.

Expansão dos mosquitos

Na adaptação às alterações climáticas, há espécies que se propagam num terreno fértil de aumento de calor, da humidade e de águas estagnadas, como é o caso do mosquito, alertou Luís Campos, presidente do Conselho Português para a Saúde e Ambiente.

Mais de 5 milhões de mortes extras por ano podem ser atribuídas às temperaturas extremas, sendo que nos fatores de risco entram também a poluição do ar, a poluição química e os químicos manufaturados, referiu.

“O mosquito é o animal que mais mata no mundo. Foi responsável por 716 mil mortes a nível global desde 2016”, salientou Luís Campos.

Também Celso Granato, professor de Doenças Infecciosas da Universidade Federal de São Paulo, chamou a atenção para o problema: “O mosquito está a expandir a sua área de atuação. Nas regiões montanhosas até 1000 metros de altitude, não havia doenças provocadas por mosquitos e agora há, ele está a adaptar-se.”

Luís Campos referiu que as alterações climáticas são uma “emergência pública”
Luís Campos referiu que as alterações climáticas são uma “emergência pública”

Luís Campos referiu que as alterações climáticas são uma “emergência pública”

As doenças causadas pelo mosquito, como a dengue, têm propensão para aumentar a nível global.

O mesmo acontece com outras zoonoses, doenças transmitidas de animais para humanos, que “são as causas de 100% das pandemias” e vão aparecer mais: “Desde 2003, temos tido duas a quatro ameaças de zoonoses por ano.”

Com o aumento da temperatura, o continente europeu começa a ser “invadido” por doenças que antes eram “tropicais”. “Em 2025, 14 países europeus notificaram 157 casos humanos com a infeção do vírus do Nilo Ocidental”, lembrou Luís Campos. Mas também as alergias causadas pela má qualidade do ar estão a escalar. “A poluição é o fator de risco mais importante para a mortalidade a nível global.”

“Temos de declarar que as alterações climáticas são uma emergência de saúde pública”, frisou, apelando aos médicos que usem a sua voz nesse sentido.

O Conselho Português para a Saúde e Ambiente, presidido por Luís Campos, agrega 110 associados, incluindo a Multicare, a Fidelidade, associações de saúde, grandes hospitais, universidades, consultores.

50% não têm literacia em saúde

No painel “Impacto das Alterações Climáticas na Saúde”, Cristina Vaz Almeida, presidente da Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde, frisou que “50% dos portugueses têm baixa literacia em saúde”. “Com o incidente da tempestade Kristin houve sete a oito pessoas que morreram porque puseram o gerador dentro de casa”, exemplificou.

Francisco Ferreira, presidente da Associação Zero, destacou a necessidade de “mitigação e adaptação”, apontando os túneis de drenagem das cheias de Lisboa como exemplo.

Celso Granato, Sofia Núncio, Cristina Bárbara e António Larroudé debateram as doenças infecciosas e respiratórias
Celso Granato, Sofia Núncio, Cristina Bárbara e António Larroudé debateram as doenças infecciosas e respiratórias

Celso Granato, Sofia Núncio, Cristina Bárbara e António Larroudé debateram as doenças infecciosas e respiratórias

Mais doenças respiratórias e cardiovasculares

O aquecimento global está a alterar o mapa das doenças e a fazer surgir riscos que até há poucos anos estavam associados sobretudo a regiões tropicais. “Antes só havia dengue nos turistas, agora há casos de dengue em pessoas que nunca saíram da Europa”, sublinhou Celso Granato. “As doenças infecciosas são dos maiores indicadores do aquecimento global.”

O especialista destacou o papel dos mosquitos na transmissão destas infeções. “Preocupem-se com a questão do mosquito. Porque controlar o mosquito é como ter uma vacina para o dengue, a malária, entre outras.” Uma forma de prevenção é evitar “ter vasos com plantas em casa” por causa da água estagnada, referiu.

A poluição do ar é um dos principais fatores de risco. “As doenças respiratórias já estão a aumentar por causa das alterações climáticas”, alertou António Larroudé, Diretor do Serviço de Otorrinolaringologia do Hospital da Luz, lembrando que “o sistema respiratório não tem válvulas, entra tudo diretamente”.

Victor Gil, Fátima Franco e António Vaz Carneiro no painel das Doenças Cardiovasculares
Victor Gil, Fátima Franco e António Vaz Carneiro no painel das Doenças Cardiovasculares

Victor Gil, Fátima Franco e António Vaz Carneiro no painel das Doenças Cardiovasculares

Cristina Bárbara, diretora do Programa para a Área das Doenças Respiratórias da Direção-Geral da Saúde (DGS), explicou que as partículas finas em suspensão, microscópicas, “entram nos nossos alvéolos pulmonares e podem provocar inflamação e doença”. Vemo-las no ar sob o efeito de neblina ou smog.

A poluição atmosférica tem também um grande impacto cardiovascular. Victor Gil, Diretor do Centro de Risco Cardiovascular e Trombose do Hospital da Luz, citou um estudo internacional que analisou mais de 32 milhões de mortes cardiovasculares e concluiu que, dessas, “1,2 milhões podem estar associadas a temperaturas extremas”. No entanto, “ainda se morre mais de frio extremo do que de calor extremo”.

António Vaz Carneiro, presidente do Instituto de Saúde Baseada na Evidência, chamou a atenção para a vulnerabilidade das populações perante eventos climáticos. “As ondas de frio são muito mais mortíferas”, afirmou, lembrando que “o frio mata 18 vezes mais do que o calor”.

Já Fátima Franco, diretora do Programa para as Doenças Cérebro-Cardiovasculares da Direção-Geral da Saúde (DGS), sublinhou a importância de melhorar o conhecimento sobre estes impactos. “Agora é preciso começar a quantificar, mapear a mortalidade, a afluência ao serviço de urgências”, disse, alertando que “é previsível que o calor passe a matar mais”.

Como frisou Jorge Magalhães Correia, chairman da Fidelidade, no encerramento da conferência, “a saúde pública está intimamente ligada à estabilidade climática”. Compreender o impacto das alterações climáticas na saúde é fundamental para contribuir para cuidados mais sustentáveis, referiu. O Grupo Fidelidade quer estar “na linha da frente desta transformação”.

Regressar à Página Inicial