Para Daniel Gonçalves, o projeto é uma oportunidade que vai além do palco. Nas palavras do presidente, “proporciona a muitos jovens e adultos, que se calhar têm dotes que ninguém sabia, às vezes nem os próprios, vir aqui apresentá-los, vivê-los e, quem sabe, será o futuro de muitos deles”. Para quem ainda hesita em participar, o responsável da junta apela a que o façam sem medo “porque não só esta é uma freguesia de cultura, mas também de diversidade e de lazer. É a maneira verdadeira de poder dizer: eu sou o talento aqui da freguesia.” Daniel Gonçalves arrisca mesmo uma previsão: tem a certeza de que vai sair das Avenidas Novas “um grande talento.”
Um palco aberto a quem passa
O Open Mic, o momento em que qualquer pessoa pode subir ao palco sem estar inscrita no concurso, foi um dos elementos que mais marcaram o dia, revelando que há muita gente que tem talento e que, embora não tivessem conhecimento do projeto Talentos de Lisboa, adoraram a iniciativa e resolveram tentar a sua sorte. Nas Avenidas Novas, uma freguesia de perfil urbano e diverso, isso ficou evidente desde cedo. Pessoas que passavam pelo Arraial do Campo Pequeno pararam, viram o palco, ouviram a música e decidiram na hora.
Andreza chegou ao showcase a passear com a filha Luana, de 11 anos, e a amiga desta, Lia, de 10. Viram o palco, o cartaz, a movimentação, e decidiram participar. “Demos de caras com isto e pensámos: que iniciativa engraçada, vamos tentar”, contou. Nenhuma delas sabia que o projeto existia. Saíram inscritas. Luana dança e quer ser atriz e bailarina profissional. Lia quer cantar fado. “Cantar fado é o meu sonho”, disse com 10 anos e tudo pela frente. Andreza não ficou atrás e, também ela, subiu ao palco para cantar fado.
Alexandre Miguel Costa da Silva, 24 anos, também ganhou coragem para mostrar o seu talento. Canta desde sempre, ouve rádio de manhã à noite e aproveitou o Open Mic para fazer algo que tinha em mente há muito: cantar uma música do Fernando Daniel dedicada à avó que já não está cá. “Eu quis cantar aquela música para ela. Acho que ela ia adorar”, disse. Não se pôde inscrever no concurso por não ser residente no concelho de Lisboa e lamentou não poder concorrer. Mas não saiu de mãos vazias. “A esperança ficou ali”, disse, acrescentando que “fica para a próxima”.
O caso de Alexandre e de outros que, embora não residissem numa das 24 freguesias da capital, decidiram mostrar o seu talento ilustra uma das características do Open Mic: o palco é aberto a todos, independentemente da morada. Quem não reúne os requisitos para concorrer pode ainda assim atuar, ser ouvido e, quem sabe, encontrar ali o empurrão para dar o passo seguinte. O facto de o formato atrair pessoas de fora da cidade mostra que o projeto está a ganhar uma visibilidade que já vai além dos limites do concelho.
De volta com mais foco
Charlemagne Brutus, nome artístico de Nuno Veiga, foi um dos finalistas da edição anterior do concurso e volta este ano mais determinado. Chegou à final em 2025 sem vencer e agora regressa com outro foco. “Gostei da experiência, acho que é uma boa plataforma para todos os artistas, para quem quer divulgar o seu trabalho e fiquei feliz de ver que não sou o único que quer seguir os sonhos e objetivos”, disse. Desde então, o reconhecimento cresceu de forma orgânica. “As pessoas conseguem ver que eu realmente canto e levo esta vida da música a sério e convidam-me para cantar em festas e eventos locais. Por enquanto. Mas sempre é alguma coisa”, afirmou.
Sobre a edição anterior, Brutus é pragmático. Não ganhou, mas retira da experiência uma lição que aplica agora. “Por vezes, ganhar não é tudo. Conseguimos perceber, não só com aquilo que fizemos, mas com os erros, o que podíamos ter feito melhor. É sempre uma boa aprendizagem”, lembrou. É com essa aprendizagem que regressa em 2026, mais focado e com objetivos mais claros.