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Concurso passa por Alvalade e pelo Beato a caminho do Cinema São Jorge

Márcio Furtado, 30 anos, cantor, concorrente do bairro de Marvila, já foi finalista nas duas edições anteriores

Concurso passa por Alvalade e pelo Beato a caminho do Cinema São Jorge

Em Alvalade, a curiosidade superou a coragem de subir ao palco. No Beato, a adesão foi grande e trouxe novas inscrições. Em ambos os territórios, os presidentes de junta deixaram claro porque é que o alargamento a toda a Lisboa faz sentido.


Publicado em 17 de Junho de 2026 at 08:00

No Arraial de Alvalade, o palco do Talentos de Lisboa atraiu olhares curiosos, mas poucos corajosos. No Beato, num largo junto à Escola Básica e Secundária Luís António Verney, a resposta foi imediata, com vários candidatos a inscreverem-se ali mesmo. Dois showcases, dois retratos diferentes da cidade, mas a mesma ideia de fundo. O talento está espalhado por Lisboa e só precisa de ser encontrado.

Em Alvalade, a timidez ainda manda

O protagonista do showcase em Alvalade foi Márcio Furtado, 30 anos, residente em Marvila, que já foi finalista nas duas edições anteriores e está inscrito para a terceira. “Não há duas sem três”, brincou, antes de falar sobre o que esta nova fase representa. “Acho que é sempre difícil porque há sempre muito talento”, disse sobre as edições passadas. “Agora que é abrangente a todos os residentes de Lisboa, acho que vai aparecer ainda mais talento, e é sempre bom, porque conhecemos muitas pessoas, novos contactos, novas amizades, quem sabe parcerias.”

Márcio faz teatro musical, participou em peças como “Jesus Cristo Superstar”, “Hairspray” e “Mazel Tov”, e é coralista de reforço no Teatro Nacional São Carlos. Já atuou em eventos como o “Vamos a Macau”, na Praça do Comércio. Apesar do currículo, recorda que sempre foi “muito introvertido” a mostrar o que sabe fazer, e que o Talentos do Bairro o ajudou a crescer “enquanto artista e enquanto pessoa.”

Sobre a Academia dos Talentos, novidade deste ano para os 24 semifinalistas, Márcio vê uma oportunidade sobretudo para quem está a começar. “É uma excelente oportunidade para começarem a crescer, para experimentarem e terem a certeza de que é aquilo que eles querem e que é aquilo que gostam.” A quem ainda hesita, deixa a certeza de que “não precisam de ter medo nenhum, porque a equipa está sempre para apoiar”.

Este alargamento é importante para darmos oportunidade a todos.

Imagem do artigo: Concurso passa por Alvalade e pelo Beato a caminho do Cinema São Jorge
Tomás Gonçalves, presidente da Junta de Freguesia de Alvalade, à conversa com Teresa Guilherme

Tomás Gonçalves, presidente da Junta de Freguesia de Alvalade, à conversa com Teresa Guilherme

Sobre o seu próprio percurso, Márcio confessa que, “por preferência própria, eu adiei muito, e agora que estou a desabrochar, adoro. É mesmo isso que eu gostava de fazer para a minha vida.”

Esse acompanhamento, que Márcio sentiu ao longo das edições anteriores, não nasce do acaso. Tomás Gonçalves, presidente da Junta de Freguesia de Alvalade, falou da relação de proximidade com a Gebalis. “Trabalhamos há muitos anos com a Gebalis, com uma relação de grande proximidade com o seu conselho de administração”, explicou, acrescentando que a junta tem dado a conhecer a iniciativa às IPSS, associações e clubes da freguesia “para que os mais jovens e os menos jovens se possam inscrever e participar”.

Sobre o alargamento a toda a cidade, Tomás Gonçalves não tem dúvidas. “Esta inovação é importante para darmos oportunidade a todos. O trabalho social não pode ser feito só para alguns, não pode criar guetos.” Para ele, este tipo de iniciativa “ajuda a criar comunidade” e mostra “que as entidades públicas estão ao serviço da comunidade”. E deixa um convite: “Não custa experimentar. Se não experimentarem, não sabem se vão gostar ou não”, refere. E deixa um desafio: “Quem sabe ainda nos encontramos no Cinema São Jorge, na final.”

No Beato, a adesão foi imediata

No Beato, a escolha do local não foi acidental. Silvino Correia, presidente da Junta de Freguesia, explicou que o showcase aconteceu junto à Escola Básica e Secundária Luís António Verney precisamente por ser uma escola “que tem um percurso para além do percurso normal de ensino”, com música, dança e instrumentos. “Esta escola tem esse potencial de a parte artística ser uma mais-valia na vida destes miúdos”, disse. “Muitos deles agarram essa oportunidade.”

Para Silvino Correia, a importância deste tipo de projeto na sua freguesia vai muito além do espetáculo de um dia. “A nossa freguesia não será das freguesias mais favorecidas da cidade de Lisboa”, afirmou, sem rodeios. “Temos muitas famílias com dificuldades, agregados que ao longo da vida têm tido um ciclo de pobreza e, por vezes, de abandono escolar.” É nesse contexto que vê o valor real da iniciativa. “Estas situações geram oportunidades para que estas crianças não fiquem apenas sujeitas àquilo que a vida lhes oferece localmente.” E acrescentou que “nem todos podem ser um Cristiano Ronaldo em cada uma das áreas, mas o facto de participarem, de se mostrarem, de estarem presentes, é muito importante para eles”.

Nem todos podem ser um Cristiano Ronaldo em cada uma das áreas, mas o facto de participarem é muito importante para eles.

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Silvino Correia, presidente da Junta de Freguesia do Beato

Silvino Correia, presidente da Junta de Freguesia do Beato

Sobre o alargamento do projeto a toda a cidade, Silvino Correia vê-o como reconhecimento. “Isto vem no sentido de terem percebido a qualidade que ali estava”, disse, referindo-se ao trabalho da Gebalis nos bairros municipais. “Ao ser alargado a outros locais, acaba por ir à procura de outros talentos, e provavelmente o nível vai subir. É sempre uma mais-valia.” E pode sair do Beato um talento de Lisboa? A resposta foi imediata. “Claro que sim, já saíram muitos. Não estou aqui a dizer que encontramos cá um Cristiano Ronaldo, mas mesmo a jogar à bola temos cá muito bons jogadores. Fadistas, músicos, temos tido muitos talentos ao longo dos anos, e a ideia é multiplicar esse número.”

A relação da junta com o tecido associativo local é, para o presidente, uma das chaves deste trabalho. “Temos uma relação muito próxima das coletividades e das associações de moradores”, disse, citando como exemplo um grupo de ballet com mais de 70 crianças e clubes que organizam concursos de fado. “Aquilo que fazemos, acima de tudo, é dar condições aos clubes e às associações para que possam fazer essas coisas.”

Histórias diferentes, o mesmo palco

André Pinto, conhecido como G-Cash, vem da Alta de Lisboa e é pai de dois filhos. Já foi finalista duas vezes no Talentos do Bairro e volta a inscrever-se. “Não há duas sem três”, repetiu. Para ele o alargamento é um desenvolvimento natural. “Acho que foi uma evolução muito grande. Trazer os talentos de Lisboa acho que é um orgulho enorme, até para quem já participou, que é o meu caso.” Sabe que a fasquia sobe. “Vamos ter mais variedade de talentos, mas temos de trabalhar.” Da experiência anterior, diz que ficou com “mais presença em palco” e com o profissionalismo de uma estrutura “que nos faz sentir mais artistas.” Sobre a Academia dos Talentos considera que se trata de “uma novidade espetacular. Qualquer artista emergente necessita de apoio.”

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G-Cash (André Pinto), vem da Alta de Lisboa e já foi finalista duas vezes no anterior Talentos do Bairro

G-Cash (André Pinto), vem da Alta de Lisboa e já foi finalista duas vezes no anterior Talentos do Bairro

Ana Sofia já tinha participado na primeira edição, mas ficou pela fase inicial e saiu um pouco desiludida por não ter conseguido ir mais longe. Mesmo assim, decidiu voltar. “Porque não? Nunca é tarde para tentar outra vez”, afirmou. Sobre o alargamento, não vê motivo para preocupação. “Não olho para a parte em que é mais difícil, e sim de que todas as pessoas tenham uma oportunidade naquilo que realmente gostam de fazer.” Sobre a Academia, considera que pode ser particularmente útil para quem nunca teve aulas de música, como é o seu caso. “Acaba por ajudar quem não tem posses.”

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