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Talentos de Lisboa: dos 8 aos 93 anos a brilhar nos palcos

Don Fran com o concorrente Manuel Costa, de 93 anos, no showcase do Restelo (junta de freguesia de Belém)

Talentos de Lisboa: dos 8 aos 93 anos a brilhar nos palcos

No Restelo, uma menina de 8 anos e um reformado de 93 subiram ao mesmo palco. Na Praça da Alegria, uma vencedora da primeira edição voltou para convencer outros a arriscar. Em dois showcases muito diferentes, a mesma certeza: o talento não tem código postal nem idade.


Publicado em 26 de Junho de 2026 at 09:24

No Jardim Fernanda de Castro, no Restelo, Don Fran ficou sem palavras quando viu quem subiu ao palco naquele dia. De um lado, Áurea, de 8 anos, que estava no parque com a mãe, viu o palco montado, treinou ali mesmo e subiu a dançar ao som dos Minions. Inscreveu-se a seguir. Do outro, Manuel Martins Costa, de 93 anos, reformado, ex-comerciante e fadista de ocasião, que animava autocarros em passeios do Inatel e cantava à capela na Tasca do Chico, no Bairro Alto. Soube do concurso Talentos de Lisboa pelo Correio da Manhã e não hesitou. “Não só porque já tenho 93 anos, mas porque é um exemplo para a terceira idade”, disse. “A terceira idade tem muito para oferecer”, sublinhou.

Hoje tivemos aqui, em prova viva, duas pessoas com idades completamente opostas: uma menina de 8 anos e um senhor de 93. Isso simboliza tudo.

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O rapper Don Fran é um dos embaixadores do Talentos de Lisboa

O rapper Don Fran é um dos embaixadores do Talentos de Lisboa

Don Fran, que esteve no Restelo como embaixador do projeto, não escondeu a emoção. “Hoje tivemos aqui, em prova viva, duas pessoas com idades completamente opostas: uma menina de 8 anos e um senhor de 93. Isso simboliza tudo.” Ambos chegaram pelo próprio pé, sem terem sido influenciados por ninguém. “Simplesmente vieram porque viram no jornal ou passaram por aqui e quiseram inscrever-se. É isso que o Talentos de Lisboa representa: para qualquer idade, qualquer pessoa que tenha um sonho pode vir.”

Junta de Belém apostou nos miúdos de férias

João Carvalhosa, presidente da Junta de Freguesia de Belém, acompanhou o showcase com satisfação. A junta fez a divulgação pelos seus canais habituais, mas foi a chegada dos grupos dos campos de férias que deu um tom especial ao dia. “Estão a chegar os nossos miúdos dos campos de férias, que vêm aqui assistir e ver se algum deles quer participar, e tentar perceber se algum tem ali um talento escondido.”

Para o presidente da junta de freguesia, o alargamento do projeto a toda a cidade foi especialmente relevante para Belém. “Nós não temos bairros da Gebalis em Belém, temos habitação municipal, mas não bairros da Gebalis. É importante porque permite que toda a gente participe e, de facto, temos muitos talentos escondidos em Belém”, revelou. Para João Carvalhosa, o projeto combate o “isolamento artístico”, ou seja, a ideia de que se tem valor e talento, mas se tem vergonha de o mostrar. “Custa um bocadinho ao início, quando damos o primeiro passo, mas depois vão ver que sabe muito bem”, incentivou.

Nós não temos bairros da Gebalis em Belém, temos habitação municipal, mas não bairros da Gebalis. É importante porque permite que toda a gente participe e, de facto, temos muitos talentos escondidos em Belém.

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João Carvalhosa, presidente da Junta de Freguesia de Belém

João Carvalhosa, presidente da Junta de Freguesia de Belém

Do violino ao fado, Belém surpreendeu

Entre os candidatos que se inscreveram no Restelo estava também Moisés Barreto, de 36 anos, que soube do projeto pelo Instagram e chegou com o violino debaixo do braço. A escolha de uma música portuguesa foi intencional: uma forma de mostrar talento através do repertório. “O que quero demonstrar ao público é que a música é importante”, disse. A maior concorrência trazida pelo alargamento não o assusta. Vê-a antes como “uma motivação para perceber a qualidade e o talento que eu tenho.”

Maria, Carmo e Luísa têm 11 anos e vieram com o ATL. Foram convidadas a assistir, mas acabaram por subir ao palco a cantar e a dançar. Maria já se inscreveu. “Gostava que as pessoas soubessem que gosto muito de cantar, apesar de não andar em aulas de canto nem nada”, disse. As outras duas foram perguntar aos pais. Carmo quer, pelo menos, o terceiro lugar. Luísa quer participar, seja qual for o resultado. “Ignora as pessoas que estão à tua volta”, aconselhou. “Canta, dança, mostra o teu talento.”

Em Santo António, quem passou ficou

Na Praça da Alegria, o showcase da Junta de Freguesia de Santo António teve uma convidada especial. Inês Coito, vencedora da primeira edição dos Talentos do Bairro, voltou para convencer outros a arriscar. Desde que ganhou o concurso, lançou uma música com Don Fran, que tinha ficado em terceiro lugar na mesma edição, concluiu a licenciatura em Psicologia e já pensa num CD. Nunca deixará o fado, que começou a cantar com apenas 5 anos. “O fado nunca irá ficar em stand-by. Faz parte de mim”, afirmou.

Sobre o alargamento do projeto, Inês Coito tem uma perspetiva pessoal que vai além do simbólico. “Eu própria tenho o exemplo da minha irmã, que se quis inscrever antes e não conseguiu, e este ano já conseguiu.” A mudança de nome e de abrangência é, para ela, uma evolução necessária. “O facto de, durante dois anos, ter sido Talentos do Bairro fez com que as pessoas pensassem: não me vou inscrever porque isso é só para bairros. Não somos só nós, dos bairros sociais, que temos esse poder. Toda a gente tem o poder de se mostrar e mostrar aquilo que vale”, explicou.

Eu própria tenho o exemplo da minha irmã, que se quis inscrever antes e não conseguiu, e este ano já conseguiu.

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A fadista Inês Coito foi convidada especial no showcase da Junta de Freguesia de Santo António, com palco no arraial da Praça da Alegria

A fadista Inês Coito foi convidada especial no showcase da Junta de Freguesia de Santo António, com palco no arraial da Praça da Alegria

A quem hesita em participar, Inês fala por experiência própria: também ela foi inscrita por pressão de quem a rodeava. “O não é garantido, por isso porque não vir buscar o sim? Arrisquem, porque, se nós não fizermos por nós, ninguém o fará”, garante.

Junta de Santo António apostou no arraial

Filipa Veiga, presidente da Junta de Freguesia de Santo António, esteve presente na Praça da Alegria e explicou como a junta chegou à comunidade: através das redes sociais, coletividades e das duas escolas primárias da freguesia. Reconheceu que o alcance das escolas é limitado pela sua dimensão, mas apostou na localização do showcase como trunfo. “O facto de estarmos aqui, na Praça da Alegria, em pleno arraial, numa sexta-feira, com as pessoas a começar a aparecer para jantar, penso que foi uma mais-valia.”

O facto de estarmos aqui, na Praça da Alegria, em pleno arraial, numa sexta-feira, com as pessoas a começar a aparecer para jantar, penso que foi uma mais-valia.

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Filipa Veiga, presidente da Junta de Freguesia de Santo António

Filipa Veiga, presidente da Junta de Freguesia de Santo António

Para a autarca, este tipo de iniciativa tem um impacto que vai além do concurso. “A cultura move povos. É o que nos pode aproximar, com tantas confusões que andam por aí”, defendeu. Sobre o alargamento do projeto, acrescentou que “faz todo o sentido não fechar, mas sim integrarmo-nos todos: quem está no bairro, quem não é do bairro, quem está fora do bairro. Para Santo António, como não temos nenhum bairro municipal, agora já podemos participar.” A quem ainda hesita, lembrou que “a freguesia de Santo António está convosco. E olhem que Santo António é muito grande.”

João Belchior, de 29 anos, passou pela Praça da Alegria por acaso e ficou. “Fiquei impressionado, curioso. Acho que a curiosidade é uma das qualidades mais importantes, bem como assumir o papel”, disse. Inscreveu-se sem grandes expectativas. Quer apenas participar. “A felicidade acontece quando estamos desatentos.” A quem tem medo de subir ao palco, deixou um conselho: “É preciso grande coragem para nos levantarmos e cantarmos o que for. Temos ainda mais coragem para nos sentarmos e ouvirmos. Portanto, ouçam.”

Miriam Pedro, de 24 anos, foi convencida a participar pelos colegas de trabalho enquanto passava pela Praça da Alegria para um momento de convívio. “Não fui exatamente eu, foram eles que me inscreveram”, admitiu, com humor. Ainda assim, abraçou a ideia. “Pode ser que me dê uma oportunidade de fazer música sem ser no meu quarto.” A quem hesita, deixa um conselho simples: “A vergonha ultrapassa-se, mas não se perde nada.” Sobre a Academia dos Talentos, vê nela uma oportunidade para quem não tem formação. “Mesmo que não se ganhe, há sempre a possibilidade de melhorar e de ter um lugar dentro da música”, afirmou.

Mário Elídio Santos Coelho tem 63 anos, é angolano e inscreveu-se no showcase de Santo António depois de ver o concurso no Correio da Manhã. A vida nem sempre correu como esperava. Perdeu o pai em novo, ficou sem apoio e os sonhos no futebol e na música não se concretizaram. Tem estado, nas suas palavras, “muito apagado com a vida”. O Talentos de Lisboa é uma forma de se libertar. “É uma alegria poder participar, fazer uma coisa de que gosto e de que gostava de fazer mais”, disse.

Don Fran tem acompanhado vários showcases e a perceção é positiva. “Sei que tem havido boa adesão. O positivo disto tudo é que tive muitas mensagens de pessoas que não conseguiram inscrever-se antes e sei que agora se vão inscrever.” Sobre o papel que sente ter neste processo, explica que tenta apenas “motivar e trazer um bocadinho de carinho com as palavras que trago, porque acho que as pessoas certas podem ter as oportunidades certas.” No fim, a responsabilidade é de cada um: “são elas que têm de dar o primeiro passo”, concluiu.

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