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Talentos de Lisboa
Talentos de Lisboa: o projeto que nasceu nos bairros e agora pertence à cidade

Talentos de Lisboa: o projeto que nasceu nos bairros e agora pertence à cidade

Nasceu nos bairros municipais de Lisboa para dar palco a quem nunca tivera oportunidades. Duas edições e vários vencedores depois, o concurso Talentos do Bairro cresceu e passou a chamar-se Talentos de Lisboa. Este ano, chega às 24 freguesias da capital e a grande final será no Cinema São Jorge.


Publicado em 7 de Maio de 2026 at 08:00

Carlos Moedas lembra-se bem do momento. Era a primeira edição, em 2024, e Inês Coito estava em palco. A fadista dos bairros municipais dizia que ainda não se considerava uma cantora. O presidente da Câmara Municipal de Lisboa guardou aquelas palavras. Mais tarde, deixou-lhe um conselho: “Nunca seja uma artista de cabeça cheia, seja humilde, mas com confiança”.

Dois anos depois, o projeto cresce à escala da cidade. Aquilo que começou como Talentos do Bairro passa a abranger toda a capital. A partir de 2026, chama-se Talentos de Lisboa e estende-se às 24 freguesias.

“Dos bairros vamos para toda a Lisboa encontrar os grandes talentos”, disse Carlos Moedas na sessão de apresentação, realizada a 30 de abril no Salão Nobre dos Paços do Concelho, “um espaço reservado aos meus reis e às minhas rainhas”. Foi ali, recordou o autarca, que decidiu começar a entregar chaves de casa aos lisboetas, recusando a ideia de que o Salão Nobre fosse apenas para chefes de Estado.

A sessão abriu com uma atuação conjunta de Inês Coito e Don Fran, vencedores da edição de 2024, e encerrou com Rato Chinês e Igor D’Araújo, os vencedores de 2025.

Desde o início que a expansão era expectável. Carlos Moedas acompanhou o projeto no terreno, visitou os bairros e aplaudiu os finalistas no Capitólio, sempre com a mesma convicção: o talento existia, o que faltava era a oportunidade. Crescido no Alentejo, filho de uma costureira de Beja que lhe disse para ir “para onde as oportunidades estão”, o presidente da Câmara identificou-se desde cedo com a narrativa do projeto.

“O talento está onde as oportunidades estão e quando nós não criamos oportunidades, não encontramos esse talento”, disse. “Eu sabia que esse talento existia, até porque eu tinha estado desde o primeiro dia nos nossos bairros.”

O talento está onde as oportunidades estão e quando nós não criamos oportunidades, não encontramos esse talento

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Carlos Moedas na sessão de lançamento de “Talentos de Lisboa”

Carlos Moedas na sessão de lançamento de “Talentos de Lisboa”

O impacto do projeto, afirmou, vai além da descoberta artística. “O talento também só acontece se tivermos autoconfiança. E a vida é 80% de autoconfiança. É a capacidade de acreditarmos em nós.” E concluiu: “Se eu deixar essa autoconfiança aos nossos jovens, que são capazes, fico de coração cheio.”

Dos bairros para os palcos

O Talentos do Bairro nasceu em 2024, criado pela Gebalis, empresa municipal que gere o parque habitacional público de Lisboa, em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa, a EGEAC e a Medialivre, grupo proprietário do Correio da Manhã e da CMTV, responsáveis pela divulgação da iniciativa.

O objetivo era simples: dar palco a quem nunca tinha tido oportunidade de mostrar o que sabe fazer. Duas edições depois, com participantes que chegaram ao The Voice e a outros palcos nacionais, o projeto confirmou aquilo que se suspeitava — o talento estava lá.

A primeira edição consagrou Inês Coito e Don Fran — Francisco Jesus — que regressaram na edição seguinte como membros do júri e interpretaram em palco “Talento”, canção que escreveram em conjunto, fundindo o fado com o rap.

Para Inês Coito, a transformação foi sobretudo interior. “Quando me inscrevi, não sabia sequer se me conseguia inscrever. Quando ganhei, pensei: o que é que eu vou fazer agora?” Com o apoio certo, diz, encontrou confiança. Dois anos depois, não se considera “uma artista de cabeça cheia”, mas está “um bocadinho mais” do que estava.

A segunda edição terminou, no final de 2025, com a vitória de Rato Chinês, nome artístico de David Alexandre Chéu Cunha, seguido de Igor D’Araújo. Ambos estiveram presentes na sessão de lançamento. Rato Chinês recordou que a inscrição aconteceu quase por acaso. “Ligou-me uma menina dos Talentos do Bairro a dizer que eu tinha sido inscrito por alguém sem saber.” Esteve “adormecido” na música, mas está de volta. “Estou muito contente.”

Igor D’Araújo destacou o significado do projeto. “É sempre gratificante estar aqui e aproveitar esta oportunidade que todas estas entidades nos dão para mostrar o nosso talento.” Desde então, lançou o projeto “Histórias de Amor”.

Uma nova escala, a mesma essência

A passagem para Talentos de Lisboa é uma transformação estrutural. Entre maio e dezembro de 2026, equipas estarão no terreno nas 24 freguesias a angariar candidaturas. A CMTV acompanhará todo o percurso e transmitirá a final, em direto, do Cinema São Jorge.

Fernando Angleu, presidente do Conselho de Administração da Gebalis, formalizou o alargamento. “Em 2026, passamos do bairro para a cidade, mas não perdemos a essência, nunca a perderemos.” E acrescentou: “O talento não tem código postal, mas as oportunidades não são, à partida, iguais para todos.”

O talento não tem código postal, mas as oportunidades não são, à partida, iguais para todos.

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Fernando Angleu, presidente do conselho de administração da Gebalis

Fernando Angleu, presidente do conselho de administração da Gebalis

Para Angleu, o projeto é sobre pessoas. “Estamos a falar de autonomia, autoestima, reconhecimento e pertença.” E sublinhou a dimensão coletiva da iniciativa, envolvendo autarquia, juntas de freguesia, EGEAC, Medialivre, Fundação BPI La Caixa, associações locais e equipas da Gebalis.

A EGEAC entra na coordenação

A EGEAC assume um papel reforçado na coordenação do projeto. Pedro Moreira, presidente do Conselho de Administração, destacou uma visão integrada da cidade, “onde a cultura é assumida, descentralizada e profundamente enraizada nas pessoas”. Alguns talentos poderão chegar aos palcos das Festas de Lisboa, como já aconteceu.

A CMTV como amplificador nacional

Carlos Rodrigues, diretor-geral editorial da Medialivre, sublinhou o papel dos media. Para o responsável, a CMTV é “o grande palco da junção e da união de culturas”. A final será transmitida em direto. “Estes jovens não atuam apenas para uma sala, vão chegar a todo o País.”

Carreiras lançadas

Dois anos depois, os resultados são visíveis. Inês Coito passou pelo The Voice. Don Fran continua a criar música. Rato Chinês voltou aos palcos. Igor D’Araújo lançou novo projeto.

“Logo no primeiro ano, nunca mais me esqueço da Inês e do grande Don Fran”, recordou Carlos Moedas. “Tenho a certeza de que daqui a 10 anos alguns dos que estão aqui serão grandes artistas.”

Entre maio e dezembro, Lisboa vai à procura dos seus talentos. Uma cidade que dá palco às suas pessoas é uma cidade que acredita nelas.

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