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Concurso já está na rua à procura dos novos talentos da cidade

Concurso já está na rua à procura dos novos talentos da cidade

De concurso restrito aos bairros municipais a projeto para toda a cidade, o Talentos de Lisboa chega às freguesias com um palco portátil, microfone aberto e a promessa a quem tem um sonho: pode realizá-lo.


Publicado em 6 de Junho de 2026 at 08:00

No Lumiar, foi num jardim. Em Benfica, na praça de acesso a um centro comercial. Nos dois casos, havia um palco, um microfone aberto e pessoas que, muitas delas pela primeira vez, subiram ao palco a mostrar o que sabem fazer. Os showcases dos Talentos de Lisboa têm percorrido as 24 freguesias da capital, levando a iniciativa ao encontro de quem ainda não se inscreveu, mas que talvez só precise de um empurrão.

O formato é simples: a organização instala-se no espaço público, abre inscrições no local e convida quem já passou pelo concurso a regressar, agora do outro lado. No Jardim Professor Francisco Caldeira Cabral, no Lumiar, foi Don Fran quem deu a cara. Na Praça Central do Centro Comercial Fonte Nova, em Benfica, foi Igor D’Araújo. Os dois foram vencedores de edições anteriores e voltaram para contar às pessoas como o projeto lhes transformou a vida.

“Parece que fui eu que venci a edição”, afirma Igor, recordando que ficou em segundo lugar na segunda edição. Desde então foi à televisão, lançou o single “Vai”, disponível em todas as plataformas, e está a trabalhar num EP de sete canções chamado “Histórias de Amor”. “Graças a Deus estou a conseguir viver da música”, disse. Aos que ainda estão reticentes em participar, Igor aconselha a deixar a vergonha de lado, pois podem “perder uma grande oportunidade, quem sabe a oportunidade da vida.”

Don Fran falou do mesmo turbilhão interior que muitos candidatos sentem antes de se inscrever. “Eu andava ali no ‘eu quero muito isto, mas não tenho a certeza se tenho a coragem’. É só dar aquele passinho de coragem.” O que veio depois surpreendeu-o. “A pessoa que eu pensava que ia ganhar convidei-a para cantar um tema comigo no meu álbum e a pessoa que ganhou tem um single comigo agora.” A competição, concluiu, nunca é má quando se aproveita bem.

Para quem lhe pergunta o que pode esperar de uma participação, Don Fran responde de imediato que será a “realização de um sonho.” Desde 2024, diz, realizou sonhos que nunca esperou ver concretizados. Pisou palcos que não imaginava, recebeu validação de quem já está na indústria e percebeu que essa energia vinda de fora é a gasolina que muitos artistas precisam, mas não sabem onde encontrar. “Quem tem sonhos, eu prometo que consegue realizá-los.”

Sobre o alargamento do projeto a toda a cidade, Don Fran acredita que “os bairros não serão deixados para trás”, e acrescenta que o alargamento é também uma oportunidade para quem vive nesses territórios conhecer pessoas de outras realidades e alargar horizontes. O objetivo, resume, é trazer mais gente e mais artistas aos palcos, sem perder o carinho que o projeto sempre teve pela sua origem.

Do bairro para a cidade inteira

Esta é a primeira edição em que o projeto se chama Talentos de Lisboa e se estende a todas as freguesias da capital. Antes, com o nome Talentos do Bairro, estava restrito aos bairros municipais. A mudança de escala foi sentida pelos candidatos de formas diferentes.

Rafa G, que já tinha participado na edição anterior, resumiu bem a nova equação, afirmando que “há talento em todo o lado, não é só nos bairros. Lisboa em específico tem muito talento escondido, ninguém sabe.” A maior concorrência não o assusta, até porque “desistir não é opção”, garante.

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Os showcases no Lumiar e em Benfica contaram com candidatos entusiasmados e com a presença da apresentadora Teresa Guilherme

Os showcases no Lumiar e em Benfica contaram com candidatos entusiasmados e com a presença da apresentadora Teresa Guilherme

Junta do Lumiar vê “descentralização real”

Eduardo do Lago Barroso, vogal da cultura da Junta de Freguesia do Lumiar, vê no alargamento do projeto uma oportunidade de descentralização real. Antes, explica, “havia uma enorme concentração, as pessoas tinham de se deslocar para poder tentar a sua sorte na carreira da cultura. Agora têm a possibilidade de aceder ao projeto mais perto de casa”.

Cristiano Azevedo, que usa o nome artístico Dígitos e participou na primeira edição, voltou agora mais preparado. Dois anos a trabalhar a técnica e o repertório fizeram a diferença, diz, e sente-se “muito mais preparado para chegar mais longe.” Sabe que o alargamento a toda a cidade torna tudo mais difícil, mas é precisamente isso que o atrai de volta, pois “a competição é uma coisa boa, obriga-nos a tentar superar-nos.” O que mais valoriza não é necessariamente a vitória. “O espírito da iniciativa, o companheirismo entre os candidatos” são, nas suas palavras, o que torna o projeto único, a par dos contactos que podem surgir do encontro com o júri, a produção e os outros participantes.

Carlos Albino, de 27 anos, com o nome artístico de Jonas Júnior, veio de Chelas especificamente para o showcase do Lumiar. Conhece artistas que participaram nas edições anteriores. “São muito bons artistas, têm talento”, diz, e, apesar de já ter estado em vários palcos, Carlos “queria experimentar para ver se dá certo”. O que espera do projeto e da sua participação e percurso no Talentos de Lisboa é que lhe possa “abrir mais portas”.

Leandro, 28 anos, vive no Lumiar e soube do projeto através da internet há menos de uma semana. Canta desde sempre, mas nunca tinha subido a um palco. “Em 2026 foi a primeira vez que tive a coragem de mostrar isso a toda a gente”, admite. Para ele, independentemente do resultado, a experiência já vale. Até porque “se queres ser cantor, artista, tens que passar por isso tudo”, afirma.

Em Benfica, Pipa, nome artístico de Verónica Carreira, prestes a fazer 27 anos, é um dos nomes que regressa ao palco do Talentos de Lisboa. Canta desde criança, já participou na edição de 2025 e volta agora determinada a chegar mais longe. O irmão Diogo, de 27 anos, segue-lhe os passos e inscreve-se este ano para cantar ao lado dela. Admite o receio que o alargamento traz, mas explica que se trata de “uma competitividade saudável.”

Fantasma, nome artístico de Amir Cabral, tem 17 anos e a convicção de que a participação no Talentos de Lisboa lhe permita “ficar famoso”. HoodieSix, também com 17 anos e vindo do Lumiar, chegou a Benfica através do seu produtor e veio com o objetivo de conseguir adquirir “mais conhecimento através da música.”

No Lumiar, de acordo com Eduardo do Lago Barroso, a junta promoveu a iniciativa “através das redes sociais, dos equipamentos da freguesia, como a biblioteca do Bairro da Cruz Vermelha”, e das associações locais, sendo a ARAL uma das que deverá trazer candidatos.

A Academia que vem a seguir

Entre os showcases e a grande final, que se realizará no Cinema São Jorge, os Talentos de Lisboa incluem uma etapa que Teresa Guilherme, madrinha da iniciativa, destacou como uma das componentes que distingue este projeto de outros concursos de talento: a Academia dos Talentos.

Os 24 semifinalistas terão dois dias de formação e mentoria artística, a 24 e 25 de outubro, no Polo Cultural Gaivotas, em Lisboa. O programa inclui workshops de presença em palco, performance, expressão artística, comunicação e construção de carreira. Teresa Guilherme admite que será “muito importante para se sentirem seguros e fazer depois uma final bonita.” Neste sentido, a madrinha da iniciativa acredita que “o Talentos de Lisboa faz a diferença”.

Teresa Guilherme não tem dúvidas sobre o que dizer a quem ainda hesita. “A gente só se arrepende daquilo que realmente não faz”, diz, acrescentando que se “acha que canta bem, mesmo que não tenha a certeza, venha experimentar. Quem não arrisca não petisca.”

Um palco que se transforma em bicicleta

Os showcases acontecem num palco portátil e sustentável, o VeloStage da Velo Concerts. Movido a bateria com carregamento por painel solar, monta-se em cinco a dez minutos em qualquer espaço público e funciona com zero emissões. No fim de cada evento, fecha-se sobre si próprio com todo o equipamento lá dentro e transforma-se numa bicicleta. É esta infraestrutura que percorre as 24 freguesias, levando o projeto literalmente à porta de quem nunca foi a um concurso de talento.

É também o trabalho das juntas de freguesia que faz essa chegada acontecer. Nestes dois showcases, foram as estruturas comunitárias e associativas das juntas de freguesia do Lumiar e de Benfica que ajudaram a tornar possível a divulgação e o sonho de palco de muitos talentos.

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