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Braga recupera a memória das mulheres “invisíveis” no Estado Novo

Projeto comunitário “Onde (não) estavam elas?” articulou imagens do espólio fotográfico do Arquivo Municipal de Braga com testemunhos sonoros das mulheres “invisíveis” da cidade na época do Estado Novo

Braga recupera a memória das mulheres “invisíveis” no Estado Novo

Publicado em 05 de Outubro de 2025 às 08:00

O Arquivo Municipal de Braga criou o projeto comunitário “Onde (não) estavam elas?”, em torno da ausência de uma memória coletiva feminina na história da cidade. Fotografias e um percurso sonoro no centro histórico expõem essa invisibilidade no período do Estado Novo.

A ausência de uma memória coletiva feminina na história de Braga é o ponto de partida do projeto comunitário “Onde (não) estavam elas?”, que articula imagens do espólio fotográfico do Arquivo Municipal de Braga (AMBRG) com testemunhos expostos num percurso sonoro criado no centro histórico e inaugurado na última sexta-feira, 3 de outubro, pela autarquia. Uma iniciativa pensada no âmbito da Estratégia Cultural de Braga 2020-2030 e de Braga 25 – Capital Portuguesa da Cultura.

“Onde estavam as mulheres que vinham do campo para a cidade, vender produtos ou servir nas casas dos outros? Onde estavam as que sonhavam ter ido estudar? Onde estavam as mulheres que faziam jornada dupla para sustentar a família? Onde estavam as que não encaixavam nos valores vigentes? Onde (não) estavam elas?”, questiona a associação social e cultural PELE, responsável pela direção artística do projeto promovido pelo Arquivo Municipal de Braga. Uma possível interpretação está nas ruas do centro histórico da cidade em forma de narrativa coletiva feminina e no AMBRG. Um percurso formado por testemunhos agrupados dos seniores do Centro Social de Cunha e patente no espaço público até ao dia 23 de novembro, expõe memórias pessoais e coletivas. O mote deste “soudwalk” foram imagens dos fundos fotográficos do AMBRG, onde se inicia o trajeto.

Braga recupera a memória das mulheres “invisíveis” no Estado Novo

Estado Novo em reflexão
O projeto contemplou ainda a realização da oficina Retratos de Família, no sábado, 4 de outubro, direcionada para famílias. Fiel a um dos temas trabalhados pelo AMBRG ao longo do ano, as fotografias representativas de laços de parentesco, a oficina com curadoria da associação PELE explorou a encenação dos valores sociais nas imagens de outros tempos.

“‘Onde (não) estavam elas?’ é um único projeto que se concretiza na realização de várias iniciativas, desenvolvido em parceria com a PELE. Integrado no programa MEMORAR – Programa de Mediação do Arquivo Municipal de Braga, é um projeto de natureza participativa, que pretende promover a reflexão em torno da presença e ausência da mulher na sociedade bracarense, especialmente no contexto do Estado Novo”, explica a dirigente da Divisão do Arquivo Municipal, Fernanda Sousa. O programa MEMORAR “assenta a sua ação no princípio de que a memória não é apenas aquilo que se conserva, mas também aquilo que se ativa, se interpreta, se discute e se transforma coletivamente”, nas palavras do responsável. “Nesse sentido, procura não só valorizar os fundos e coleções à guarda do AMBRG, mas também integrar as memórias vividas e as vozes das comunidades, enquanto componentes essenciais de um arquivo mais inclusivo, plural e significativo”, conta.

Mais do que conservar documentos, trata-se de lhes dar vida através da comunidade, permitindo que memórias individuais e coletivas se cruzem, dialoguem e se convertam em património.

Ponto de partida no Dia da Mulher

Tratando-se de uma proposta centrada no generalizado anonimato do feminino na esfera pública e privada da cidade, “Onde (não) estavam elas?” iniciou-se numa data simbólica, Dia Internacional da Mulher, a 8 de março, no AMBRG. As investigadoras Ana Macedo, Carla Cerqueira e Inês Lapa juntaram-se a docentes, estudantes e cidadãos interessados pela temática e a fotografia para uma conversa aberta, desencadeada a partir de dois fundos do AMBRG, Photographia Aliança e Casa Pelicano. “O momento inaugural do projeto permitiu oferecer à reflexão o tema da presença e ausência da figura feminina na esfera social sob diferentes perspetivas, proporcionando o diálogo e a discussão entre a comunidade académica e o público em geral, promovendo pontos entre os diferentes atores e intervenientes. A natureza participativa do projeto revela-se nesta dinâmica, na qual a intervenção dos vários parceiros – arquivo, conceção artística, academia, instituição de solidariedade social e comunidade – se assume não apenas como um ponto de partida, mas também como o próprio resultado”, explica Fernanda Sousa. “Onde (não) estavam elas?” evidencia o potencial do AMBRG como espaço cultural e de cidadania. Para o diretor do Departamento de Cultura e Turismo, “mais do que conservar documentos, trata-se de lhes dar vida através da comunidade, permitindo que memórias individuais e coletivas se cruzem, dialoguem e se convertam em património”.

Portugalidade encenada

Nos meses seguintes à sessão na sala cheia do AMBRG, o projeto evoluiu para a dinâmica proporcionada pelo grupo sénior do Centro Social de Cunha. A escolha desta instituição de solidariedade social obedeceu a critérios alinhados com o programa MEMORAR. “É uma entidade com resposta social de Centro de Dia, situada numa freguesia limítrofe, concordante com a estratégia de descentralização cultural e a garantir participação equilibrada entre homens e mulheres”, justifica Fernanda Sousa.

Durante as sessões coletivas, uma equipa da associação PELE criou dinâmicas para criar ressonâncias entre as fotografias e as vivências dos participantes. Propôs uma reflexão sobre vários temas: vida e trabalho, infâncias duras e abreviadas, diferenças de género no acesso à escolaridade, papel da mulher e expectativas sociais, namoros e casamento, evolução de estereótipos de género, entre outros. Numa fase posterior, a PELE realizou sessões individuais com alguns dos participantes, procurando aprofundar a partilha das vivências e registar esses testemunhos com vista à criação do “soudwalk”.

Cada fotografia selecionada expunha memórias e revelava invisibilidades. Ausências ampliadas pelo contexto do Estado Novo em Portugal, que restringia os papéis femininos à esfera privada, limitando a participação da mulher no espaço público. “O projeto demonstrou que a forma restrita como o rural é representado nas fotografias de arquivo, numa espécie de ‘portugalidade encenada’, é muito diferente das condições de pobreza em que viviam muitas destas pessoas. Estas condições não só limitaram o acesso à escolaridade e à cidade (a maioria cresceu em freguesias rurais da periferia de Braga e apenas alguns vieram trabalhar para a cidade), como determinaram o acesso ao registo fotográfico da sua própria realidade”, conclui a equipa da PELE.

As mulheres com presença no arquivo fotográfico “não representam o todo social”, segundo a associação. “Neste acervo estão retratadas sobretudo aquelas que viviam em condições socioeconómicas que lhes permitiam ser fotografadas.”

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Cidade, som e imagem

Cada peça do percurso sonoro do projeto “Onde (não) estavam elas?” está associada a uma fotografia do AMBRG. A PELE procurou espaços específicos da cidade para acolherem essas memórias. “Assim, o percurso passa por alguns locais onde as fotografias foram realizadas, como o Convento do Carmo (onde esteve instalado o Colégio Dublin) e o Largo de Barão de S. Martinho (onde se situava a Casa Pelicano, um dos mais relevantes estúdios fotográficos da cidade).

Outros locais remetem simbolicamente para as temáticas impressas na fotografia e nas respetivas peças sonoras, nomeadamente o Jardim de Santa Bárbara (onde se expõe a fotografia de uma noiva) e a Rua de Nossa Senhora do Leite (associado ao papel da mulher enquanto cuidadora)”, descreve a associação.

O percurso procura destacar as histórias femininas ocultadas, através da triangulação entre fotografias expostas, narrativas sonoras e espaços simbólicos da cidade. Amplia a função do Arquivo Municipal de Braga na construção da memória coletiva.