O silêncio dos lugares históricos de Braga vai ser preenchido com som e luz contemporâneos durante a realização do Festival Semibreve, de 23 a 26 de outubro. O evento tornou-se, em 15 anos de existência, numa referência internacional na música eletrónica e na arte digital.
Uma das marcas do festival é a escolha dos espaços. Ao longo dos anos, o Semibreve espalhou-se por locais de forte carga histórica e até espiritual, como igrejas, o Theatro Circo ou o Salão Medieval da Reitoria da Universidade do Minho. Mas também acontece em espaços contemporâneos, como o gnration e, pela primeira vez este ano, na Zet Gallery.
Uma diversidade que não é casual. “A arquitetura religiosa é projetada para a meditação, reflexão, e é essa ambiência que nos interessa muito. Vemos esse cruzamento como muito especial e temos tido uma boa recetividade por parte da arquidiocese. Mas o festival também vai aos locais contemporâneos, como são exemplos o gnration ou, este ano pela primeira vez, a Zet Gallery”,observa Rafael Machado, diretor do festival e membro da promotora deste, a AUAUFEIOMAU.
Essa relação entre o legado cultural e a criação contemporânea esteve presente desde o momento em que foi criado o festival, como explica. “Braga tem isso em diversas dimensões, nomeadamente nas novas tecnologias. Quisemos trazer isso para a área artística.”
O diálogo entre sagrado e tecnológico, tradição e vanguarda, é parte essencial da experiência.

A proposta deste festival é irrecusável para todos os públicos que se situem nas paisagens sonoras e tecnológicas do futuro. “São quatro dias de programação diversificada, para quem conhece ou tem curiosidade em conhecer novas linguagens sonoras e visuais, podendo assistir comodamente a toda a programação, participar nos workshops, conversas ou ver documentários, ou os trabalhos realizados por alunos de instituições de ensino superior nacionais na área da arte digital.”
O Semibreve, acrescenta, é também um espaço de encontro entre jovens criadores e projetos emergentes, através da parceria com a EDIGMA que todos os anos seleciona propostas inovadoras.
A arquitetura religiosa é projetada para a meditação, reflexão, e é essa ambiência que nos interessa muito (…) mas o festival também vai aos locais contemporâneos, como são exemplos o Gnration ou, este ano pela primeira vez, a Zet Gallery.
Cartaz cruza linguagens
O cartaz cruza música, artes visuais e tecnologia. Esse diálogo entre disciplinas ajuda a aproximar o público em geral da arte contemporânea, na perspetiva da organização. “O diálogo ajuda sempre a aproximar, seja na arte ou fora dela, quebrando preconceitos e gerando novidade. Os movimentos populistas estão fortemente empenhados em que não exista qualquer diálogo. Querem ódio e segmentação. Aqui fomentamos o oposto. Para lá disso, esses movimentos e outras más práticas dão a entender a esse ‘público em geral’ que não compreendem ou não gostam de arte contemporânea, que é para uma elite, que não conheço. Talvez o Semibreve esteja a ajudar a desmistificar a criação contemporânea, não apenas junto do público que assiste, mas também junto dos criadores”, realça Rafael Machado.
Braga tem hoje um leque de criação artística muito mais diversificado, referiu, “pese embora continue a assistir à fuga de talentos”.
Capital da Cultura como alavanca
Em 2025, a coincidência com Braga Capital Portuguesa da Cultura funciona como uma alavanca. Para o programador, o reconhecimento traz benefícios indiretos, mas claros: “Acreditamos que a comunicação feita em torno da cidade desperte maior interesse em visitar e, por essa via, o festival saia beneficiado. Isso é positivo para todos.” O evento, que sempre teve ambição internacional, vê assim reforçado o apelo junto de novos públicos e parceiros.
Entre o clubbing e a experimentação
Embora muitas pessoas ainda associem música eletrónica apenas ao universo noturno dos clubes, o Semibreve mostra outra face: a mais experimental, exploratória e ligada às artes visuais. Ainda assim, Rafael Machado não nega a ligação à pista de dança. “Também temos a parte de clubbing. Não sabemos se conquistámos públicos, ou se apenas criámos a proposta que as pessoas procuravam.”
“Socialmente, o que nos vão dizendo é que durante o Semibreve se respira diferente. Não são milhares de pessoas nas ruas, mas existe uma atmosfera interessante, cosmopolita. É um outro tipo de diálogo que nos parece ser positivo para a cidade que se quer afirmar internacionalmente. Gostamos de fazer coisas que vão acontecendo de modo silencioso, com impactos de longo prazo, sem grande alarido.”

35% de público internacional
Segundo Rafael Machado, a vertente cosmopolita do Semibreve compensa. “Todos os anos, encomendamos um estudo de avaliação da performance de comunicação. A indicação que temos é de que o valor de investimento é triplicado, o que significa mais de seis vezes o apoio direto da Câmara Municipal de Braga. Além disso, temos 800 pessoas a consumir vários serviços da cidade, nomeadamente hotéis, restaurantes, comércio, museus, galerias, bares, entre outros. Tudo junto, cobre claramente o investimento municipal.”
O diretor do festival sublinha o valor inestimável da projeção de Braga além-fronteiras através de iniciativas como o festival Semibreve. “Entendemos que é importante que a Câmara Municipal de Braga e demais entidades que nos apoiam percebam que jamais este festival será financeiramente rentável, sendo esta exploração da novidade fundamental, impossível sem os seus contributos. As mais-valias são de outra natureza. Sobre conquistas, 35% do nosso público é estrangeiro e dos restantes muitos vêm de fora de Braga.”
O Semibreve já trouxe a Braga artistas que atuam nos maiores festivais do mundo. Rafael Vale explica o que atrai estes criadores internacionais a uma cidade de média dimensão em Portugal. “O festival é muito confortável para quem vem de grandes cidades e anda sempre em aviões. Podem circular a pé, em segurança, sem depender de transfers a todo o tempo. Para lá disso, o centro histórico de Braga agrada, bem como a hospitalidade, a gastronomia e os vinhos portugueses. Convidamos os artistas a estarem mais do que o dia do seu concerto, o que leva a que encontrem e convivam com os seus companheiros. Já houve projetos artísticos que resultaram desta sã convivência.”
Portugal tem hoje uma cena artística mais visível lá fora. O Semibreve desempenhou um papel fundamental na projeção internacional da cultura portuguesa, acredita Rafael Vale. “Teremos dado alguma ajuda para que os artistas que tentam sair de Portugal tenham um acolhimento mais fácil quando dizem que são de Portugal e, ainda mais, quando dizem que são de Braga. Também ajudámos a que Braga fosse Cidade Criativa da UNESCO para as Media Arts, com todo o trabalho que vêm, e bem, desenvolvendo nessa área. Quase todos os anos incluímos no programa espetáculos que implicam a colaboração de artistas nacionais com internacionais. Em alguns casos, esses espetáculos circularam por outros países. Infelizmente em nenhum desses casos os artistas residiam em Braga, apesar de já ter acontecido com artistas que nasceram aqui.”
O Semibreve transformou-se numa metáfora viva de Braga: uma cidade que respira História, mas que ousa projetar-se pelo som e pela luz.
Como resume Rafael Machado, o festival continuará a explorar “essa ambiência especial” que nasce do cruzamento entre o espiritual e o tecnológico, apostando em silêncios que se transformam em ruído criativo. Um ruído que já ecoa muito para lá das muralhas da cidade.