Já imaginou um centro comercial transformado em museu? Tem agora a oportunidade de viver essa experiência. De 8 a 23 de novembro vá até ao Shopping Santa Cruz, em Braga, leve a família e os amigos, e deslumbre- se com 16 obras artísticas que resultaram de um ano de trabalho de artistas, designers, arquitetos, curiosos, lojistas, clientes.
Da exposição Shopyard, integrada na programação de Braga 25 Capital Portuguesa da Cultura, constam vídeos, instalações, objetos e experiências que surgiram a partir de novos olhares sobre mais de 20 centros comerciais de primeira geração em Braga, espaços aparentemente esquecidos e agora revelados com um potencial inesperado.
“Em Braga, muita gente não tem noção disso, mas boa parte da produção musical alternativa nasce precisamente nestes locais — seja em salas de ensaio informais, espaços de encontro ou até em pequenos concertos. Por isso, mais do que olhar para estes edifícios como um problema, quisemos com o Shopyard trazê-los para o debate público e sublinhar a sua importância presente e futura para a vida e saúde cultural da cidade”, destaca o arquiteto Daniel Duarte Pereira, que juntamente com Fernando P. Ferreira integra o atelier de investigação em arquitetura Space Transcribers, responsáveis pela curadoria do projeto.
O Shopyard olhou de forma artística para esses centros comerciais de primeira geração de Braga, construídos entre as décadas de 1970 e 1990 em zonas centrais da cidade, muitos deles hoje marcados por elevada desocupação e problemas infraestruturais. “Em vez de os tratarmos como espaços em decadência, olhámo-los como lugares com camadas de memórias urbanas e cheios de potencial.”

@Maria João Salgado
Da loja 33 ao museu temporário
O projeto artístico começou há um ano, com o arrendamento da loja 33 do Shopping Santa Cruz. “Ao longo de um ano, arrendámos e transformámos a loja 33 do Shopping Santa Cruz num espaço de encontro e experimentação artística, em que desafiámos muita gente a pensar e a criar obras, tendo estes edifícios urbanos como fio condutor. Juntámos artistas, arquitetos, designers, lojistas, condomínios, e o público curioso em três tipos de programas — residências artísticas, oficinas, uma Summer School de arquitetura, assembleias e visitas — para criar, testar e discutir novas possibilidades para estes edifícios, que fazem parte da paisagem de Braga há décadas, mesmo quando já quase não reparamos neles”, refere Daniel Duarte Pereira.
A exposição que inaugura a 8 de novembro começa na loja 33, com um mapa que mostra a localização dos mais de 20 centros comerciais de primeira geração da capital portuguesa da cultura. A partir daí, o percurso estende-se pelos restantes pisos, nos quais se podem ver peças desenvolvidas nas oficinas, residências artísticas e na Summer School, realizadas de forma colaborativa entre artistas, lojistas, participantes e condomínios.
Cidades dentro da cidade
O que encontraram ao desenvolver o projeto foi “uma espécie de cidade paralela que estava escondida”. “Histórias de quem trabalha ali há décadas, memórias que resistem e novas formas de uso que se foram instalando silenciosamente, como, por exemplo, um atelier de cerâmica ou uma loja especializada em artigos africanos. As oficinas juntaram pessoas de diferentes áreas; por exemplo, na oficina de design orientada pela designer Ana Areias, participaram designers de Braga que viviam na mesma cidade, mas não se conheciam. Também apareceram participantes que voltaram a entrar no shopping pela primeira vez em muitos anos, partilharam memórias e redescobriram o espaço através de outra lente”, recorda o arquiteto.
A transformação da loja 33, projeto do ateliê de arquitetura Oitoo, mostra bem esse processo, exemplificou. “Removemos os vidros e abrimos o espaço interior e privado da loja às zonas comuns com uma cortina amarela flexível, num trabalho que exigiu constante diálogo com lojistas e condomínio, e expôs os desafios de atuar num edifício com centenas de proprietários”. Lojistas que no início “estavam à margem, reticentes e desconfiados acabaram por colaborar, emprestar materiais a diferentes artistas e criar, aos poucos, uma relação de confiança”.
As tensões fizeram parte do processo, refere Daniel Duarte Pereira — “e, na verdade, são também o que torna este projeto relevante”. Algumas intervenções “foram mais provocadoras e criaram desconfiança junto de quem passava, como no caso dos P22, que decidiram transformar a loja-sede na sua casa e viver lá durante a residência. Curiosamente, foram os próprios lojistas que ajudaram a normalizar a situação, explicando naturalmente aos clientes que “eles viviam ali”.
Outras intervenções foram mais colaborativas, adiantou, “como as de Gonçalo Araújo ou Mónica Faria, que envolveram diretamente lojistas nas suas atividades. Ou a de Inês Barros, que expandiu o programa para outro centro comercial, fazendo uma instalação no piso -1 do Centro Comercial Santa Bárbara, agora recriado na exposição no Santa Cruz”.
Reforçar a comunidade artística
Os Space Transcribers acreditam que o propósito de uma Capital Portuguesa da Cultura é mostrar que a cultura é uma prática quotidiana. Não acontece apenas pontualmente nos espaços institucionais, como o gnration ou o Theatro Circo, como sublinha o arquiteto Daniel Duarte Pereira. “Acreditamos que os artistas devem e podem ser convocados para pensar sobre a vida diária e sobre os lugares que fazem parte desse quotidiano, e os centros comerciais de primeira geração são um dos muitos destes lugares do quotidiano.”
Por outro lado, ao criar um programa aberto e envolver muitos artistas e participantes de Braga, “acreditamos que contribuímos para reforçar a comunidade artística local e a sua capacidade de intervir e impactar a cidade”.
Daniel Duarte Pereira entende que o projeto acrescenta à cidade “camadas e complexidade”. “Braga já não é uma cidade pequena. Cresceu muito nos últimos anos, tornou-se mais diversa e multicultural, e vive no dilema de ser uma uma cidade antiga, com uma identidade tradicional e um desejo de modernidade e vanguarda. Ao convocarmos edifícios relativamente banais como centros comerciais — mas que podiam ser outros, tais como fábricas, escolas — estamos a reivindicar uma história urbana recente, muitas vezes ignorada ou não considerada como assunto da cultura. Mas achamos que conhecê-la é essencial para compreender melhor a cidade e, acima de tudo, para imaginar de forma mais informada, consciente e colaborativa para o seu futuro”.
Quando alguém volta a entrar num edifício ao qual já não ia há anos e o vê com outros olhos, isso já é uma transformação, observa.
Afinal, o nome Space Transcribers “vem precisamente dessa ideia de escrever e reescrever espaço”, partindo do princípio de que qualquer lugar tem potencial de significado. “Não precisamos de nos limitar aos monumentos ou aos espaços institucionalizados. Pequenas ações, intervenções artísticas e encontros coletivos podem alterar a forma como um lugar é vivido e imaginado. E isso tem impacto direto na forma como as pessoas se relacionam com a cidade.”