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Jovens debatem colonialismo em projeto artístico

No projeto O que Fazemos com isto os jovens promoveram encontros e debateram o colonialismo

Jovens debatem colonialismo em projeto artístico

Publicado em 16 de Novembro de 2025 às 09:00

No âmbito da programação de Braga Capital Portuguesa da Cultura, o projeto “O que fazemos com isto? – Pensar questões coloniais” levantou do chão o tema tabu do colonialismo e juntou em diversos encontros jovens, artistas e ativistas. Conversas, uma performance, uma visita guiada, um livro e uma instalação vão ser apresentados nos dias 20 e 21 de novembro no gnration, em Braga

Se há tema que em Portugal ainda é pouco explorado e quase tabu é o do colonialismo. A programação de Braga 25 Capital Portuguesa da Cultura trouxe o tema para a agenda com o projeto “O que fazemos com isto? – Pensar questões coloniais”. Nos dias 20 e 21 de novembro, no gnration, em Braga, serão apresentados um livro de contos, um filme e performances. O projeto é o resultado de diversos encontros promovidos entre jovens – com ligação a Braga e/ou países de língua oficial portuguesa –, artistas de diferentes disciplinas, pensadores e ativistas.

Hugo Cruz, diretor artístico, e Luege D’Olim e Chisoka Simões, membros do grupo de jovens envolvidos no processo, contaram como foi participar desta experiência única. O que é “isto” que o projeto nos convida a repensar? “Esta pergunta é o ponto de partida do projeto e tenta traduzir a sensação generalizada que se tem quando se pretende discutir as questões coloniais. Por ser um assunto que gera os mais distintos desconfortos, com diferentes perspetivas, e representa muitas feridas abertas, a tendência – nomeadamente na cultura portuguesa – é a de preferir não falar, não desconstruir, não questionar narrativas, no fundo, não se confrontar”, afirma Hugo Cruz.

Aqui existiu diálogo aberto e construção. Os vários encontros entre jovens de Braga e dos países de língua oficial portuguesa com artistas de diferentes disciplinas e pensadores foram reveladores para quem neles participou. Luege D’Olim, uma das jovens envolvidas, resume assim o que vivenciou: “Este encontro de histórias, memórias e identidades fez-nos descobrir que, apesar de sermos de diferentes países, temos a humanidade e a lusofonia em comum, esta lusofonia engloba a língua, a história do passado e o nosso presente, que remete para a imigração, e ao presente dos jovens em Braga, que passam a conhecer outras geografias, e apresenta-nos também a geografia da própria cidade”.

Jovens debatem colonialismo em projeto artístico

Luege conta como o projeto “trouxe à superfície a história das nossas famílias, como aprendemos a ver os outros” e como “através da arte é possível expressar aquilo que no quotidiano seria ignorado, como as nossas simples vivências e opiniões”.

Biblioteca e oficina criativa com Ondjaki

A herança colonial é um tema que muitas vezes gera desconforto. Um desconforto que foi transformado em criação artística e diálogo, como explica o diretor artístico Hugo Cruz. “Num primeiro momento, este projeto procurou ativar o pensamento crítico, criando espaço para que este grupo de jovens de Braga com ligações aos países de língua oficial portuguesa pudesse abordar e investigar este tema, cruzando-se nesse processo com artistas, ativistas e pensadores. Neste momento, foi também criada, de forma orgânica, uma biblioteca comunitária composta por livros relacionados com o tema.”

Numa segunda fase, avançaram para a criação artística, “com o trabalho de escrita orientado pelo escritor angolano Ondjaki, que permitiu partir de histórias que o próprio grupo trouxe e desenvolver um processo de ficcionalização para criar dez contos originais que integram o livro de contos “Tudo isto é futuro”.

As histórias que o grupo trouxe partiram de testemunhos reais, explicou Luege D’Olim, estudante internacional na Universidade do Minho, envolvida em projetos culturais e associativos em Braga, membro da Secção de Estudantes Africanos da AAUM, que acredita que a melhor integração pode ser promovida também em contextos culturais. “O público vai encontrar nestes contos histórias que sempre pairaram sobre as suas mentes, mas nunca contadas do seu próprio ponto de vista. Porque será o ponto de vista de jovens que os convidam a abraçar outras realidades, questionar caminhos e reescrever novas histórias no futuro”. Desde os “reflexos que somos na vida dos outros e ao espelho, as perguntas que fazemos aos educadores, as desigualdades sociais, a forma como lidamos com animais, as lembranças presentes de um passado e o futuro das nossas relações sociais, o livro dá a oportunidade de o público se pôr no lugar das personagens destes contos, sendo ‘tudo isto futuro’ como seria?”, referiu Luege.

Outra camada deste livro resulta do convite a três ilustradores que expandiram este diálogo para o universo visual. Os contos originais e as ilustrações serão, ainda, inspirações para a performance a apresentar dia 21 de novembro e que fecha o ciclo no gnration: Peça- -Con(ser)to. Finalmente, será ainda apresentada uma instalação que dialoga com todo o processo deste projeto, da autoria do Diogo Gazella, e ativadas duas rodas de conhecimento com vários convidados, em que se propõem conversas que expandem os debates promovidos pelas obras artísticas, descreveu o diretor artístico.

Jovens debatem colonialismo em projeto artístico

Nas “malhas coloniais” de Braga

A cidade de Braga também é palco e matéria-prima do projeto. A visita guiada “Desbravar Impérios: Passeio pelas Malhas Coloniais de Braga” vai revelar ao público “a estreita ligação de Braga com o esforço imperial e colonial português. É algo que podemos preferir não ver, mas que faz parte da nossa história e mostra como as estruturas atuais se fortalecem”, refere Chisoka Simões, investigador e doutorando em Estudos Culturais na Universidade do Minho (Braga).

Através de vários exemplos práticos, como nomes de ruas e símbolos em monumentos, pretende-se “mostrar como a mentalidade colonial ultrapassa o fim formal do império português”. Por isso, “convidamos as pessoas a inscreverem-se, pois achamos que esta visita é um bom exercício para a construção de uma sociedade mais consciente do ‘Outro’. E, assim, compreender que tudo pode ser confrontado, até o passado colonial português”, realça Chisoka Simões.

Rodas de conhecimento

Há uma forte componente de partilha e conversa no projeto “O que fazemos com isto? – Pensar questões coloniais” através de rodas de conhecimento e momentos de pensamento. “Esperamos que o público se relacione com os diferentes momentos, que se relacione com diferentes estéticas e perspetivas, e a partir daí, possa produzir outras perceções e ideias que desconstrua uma narrativa única que nos foi contada, uma história que glorificada o nosso papel enquanto colonizadores”, observa Hugo Cruz.

Ao fim de um ano de encontros, livros e arte, o que é que “estamos a fazer com isto”? Luege D’Olim responde: “Sinto que ‘estamos a fazer com isto’ novas realidades, novos caminhos em que o que é passado é dito por todas as partes de modo a não se repetir, estamos a fazer arte, que pode ser absorvida para chamar a atenção sobre a humanidade que está presente em todos, estamos a curar destinos e estamos a dar voz, e quando se dá voz, o que se segue é dar vez.”

E com arte, “já não estamos a pedir consertos, somos nós parte que procura também consertar, com encontros, estamos a criar comunidade, participa quem achou que nunca teria espaço para estar e estar é muito mais do que a partilha que tivemos, estar é ver o contributo ganhar forma, e o nosso fez-se livro, livre e arte”. Venha participar também desta comunidade e descobrir um novo olhar para este passado tão recente.