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“Seara” junta gigantes da música de raiz portuguesa no último ato de Braga 25

“Seara” junta gigantes da música de raiz portuguesa no último ato de Braga 25

Publicado em 14 de Dezembro de 2025 às 10:00

O espetáculo que encerra simbolicamente a capital da cultura, “Seara”, promete transformar o Theatro Circo numa verdadeira celebração da música portuguesa de raiz no dia 19 de dezembro. Em palco, estarão artistas de várias gerações — de Amélia Muge a Rão Kyao, de Júlio Pereira a Manuel de Oliveira e Daniel Pereira Cristo. O curador Ilídio Marques fala de um “encontro especial e memorável”

O espetáculo “Seara” chega ao Theatro Circo, em Braga, a 19 de dezembro, como o grande momento final de Braga 25 – Capital Portuguesa da Cultura. Para Ilídio Marques, curador do projeto, “Seara” é a materialização de um ano inteiro de trabalho dedicado à valorização da música portuguesa de raiz.

É também o culminar do programa Clube Raiz, que durante doze meses reuniu artistas, investigadores, músicos e público em torno da tradição musical e das suas múltiplas formas de reinvenção. “Este espetáculo acaba por ser uma celebração maior deste programa, no qual reunimos e cruzamos várias figuras de relevo da música portuguesa, com trabalho de mérito na música de raiz e nas suas múltiplas ramificações. O que o torna também especial é que espelhará o passado, a nossa história, mas também reflete quem faz o presente e projeta quem está a moldar o futuro, protegendo a tradição, mas desafiando-a à orgânica natural da sua evolução”, sublinha Ilídio Marques.

“Seara” junta gigantes da música de raiz portuguesa no último ato de Braga 25

A ideia não era fazer um encerramento formal, mas sim um “espetáculo que perdurasse na memória do público e do projeto”, capaz de afirmar a relevância da música tradicional numa época em que a cultura enfrenta desafios constantes.

A escolha dos artistas traduz essa ambição. Juntar Amélia Muge, Rão Kyao, Júlio Pereira, Daniel Pereira Cristo e Manuel de Oliveira no mesmo palco é um acontecimento raro.

São nomes de gerações e percursos diferentes, mas cada um deles portuguesa: uns pela pesquisa profunda na tradição, outros pela capacidade de renovação estética e outros ainda pela aproximação entre universos musicais aparentemente distantes.

“Seara” junta gigantes da música de raiz portuguesa no último ato de Braga 25

Para Ilídio Marques, esta “constelação” nasceu de forma natural, apesar da sua dimensão. “Além de um concerto memorável — que gostaríamos que entrasse diretamente para a história recente da música tradicional portuguesa —, esperamos que outros músicos olhem para esta junção e tenham vontade de partilhar o palco com outros músicos, criando momento coletivos singulares, com grandeza significativa.” O curador lembra que houve um tempo — sobretudo no período pós-25 de Abril — em que era habitual ver grandes nomes da música portuguesa juntos em palco, num espírito de cooperação artística que hoje quase desapareceu. “Vivemos tempos difíceis e a força natural destas junções renova a atenção sobre o papel da música e da arte na transformação da sociedade”, sublinha.

ESTE ESPETÁCULO ACABA POR SER UMA CELEBRAÇÃO MAIOR DESTE PROGRAMA, NO QUAL REUNIMOS E CRUZAMOS VÁRIAS FIGURAS DE RELEVO DA MÚSICA PORTUGUESA, COM TRABALHO DE MÉRITO NA MÚSICA DE RAIZ E NAS SUAS MÚLTIPLAS RAMIFICAÇÕES.

O propósito de “Seara” é recuperar esse espírito, renovar o sentido de comunidade artística e, quem sabe, inspirar outros músicos a colaborarem mais.

“Seara” junta gigantes da música de raiz portuguesa no último ato de Braga 25

Tradição e inovação

A fusão entre tradição e inovação surge naturalmente deste cruzamento de gerações. Não se trata de apresentar sons futuristas, nem de misturar estilos apenas para surpreender. O que o espetáculo propõe é uma convivência genuína entre saberes e sensibilidades. “Ao cruzarmos diferentes gerações da música tradicional portuguesa, da música raiz, estamos naturalmente a criar essa fusão entre tradição e inovação.”

Essa fusão estará presente em “Seara”, não de forma explosiva ou disruptiva, mas “subtil” — como quem respeita a tradição e, ao mesmo tempo, a deixa respirar. O espetáculo apresenta também arranjos inéditos construídos em colaboração entre todos os músicos. Em teoria, juntar artistas com percursos tão variados poderia gerar tensões criativas. Na prática, o processo foi fluido. “São músicos experientes, com uma enorme capacidade de encaixe, uma enorme maturidade musical e que abraçaram este desafio com um sorriso na cara”, afirma o curador.

Os verdadeiros obstáculos foram logísticos: artistas espalhados por vários pontos do país, agendas cheias, ensaios agendados ao minuto. Mesmo assim, todos se entregaram ao projeto com entusiasmo.

“Seara” junta gigantes da música de raiz portuguesa no último ato de Braga 25

A carga histórica do Theatro Circo

A escolha do Theatro Circo não é um detalhe. Para o curador, é difícil encontrar um palco com tamanha carga simbólica e histórica. “Não existiria melhor palco para acolher este espetáculo, creio. É uma sala que viu os últimos 100 anos da história da música portuguesa — e não só, também de outras artes, claro. É uma sala que presenciou artistas que fizeram a nossa identidade musical, mas também a identidade global, dado o percurso internacional da sala. Figuras como a Amália Rodrigues ou a Cesária Évora pisaram este palco. É uma sala repleta de história, além de ser a sala mais bonita do país (dizem). E este peso histórico da sala entrega ainda uma maior dimensão e importância a este espetáculo”, sublinha Ilídio Marques.

Pôr ali músicos que personificam diferentes épocas da música portuguesa transforma “Seara” num diálogo entre passado e presente que só aquele palco pode amplificar.

VIVEMOS TEMPOS DIFÍCEIS E A FORÇA NATURAL DESTAS JUNÇÕES RENOVA A ATENÇÃO SOBRE O PAPEL DA MÚSICA E DA ARTE NA TRANSFORMAÇÃO DA SOCIEDADE.

Parceria com Évora 27

A parceria com Évora 27 – Capital Europeia da Cultura acrescenta ainda mais alcance ao projeto. “Évora, além de ser a Capital Europeia da Cultura em 2027, é também um rico território para a música de raiz e essa natureza acaba por ser parte integrante de um cancioneiro nacional. Para Braga 25 fez todo o sentido ter Évora 27 como parceiro neste espetáculo. É uma forma de estender uma ponte entre Braga e Évora, que estão tão longe territorialmente, mas muito próximas através da música tradicional portuguesa. Esperamos que o espetáculo possa também subir a um palco de Évora em 2027.”

Quanto ao que o público pode esperar ou como vai ser surpreendido, Ilídio Marques deixa um repto: “Vou lançar um desafio: venham ao Theatro Circo a 19 de dezembro e tenham essa resposta ao vivo, a partir da experiência de plateia e com o olhar para o palco. Para sermos surpreendidos, temos de estar presentes. Estejamos mais ou menos habituados, mas presentes. Já vivemos em demasia distantes uns dos outros, não é verdade? Fica o convite.”

“Seara” é, no fim de contas, um espetáculo que fala de continuidade: da tradição, da cooperação entre artistas, da ligação entre cidades, públicos e criadores. É um ato de celebração, mas também de futuro. Um gesto que honra o passado sem o congelar, que afirma o presente e que abre espaço para o que ainda está por vir.

Num ano em que Braga celebrou a cultura como eixo central da sua identidade, “Seara” surge como o fecho mais simbólico possível — grande, luminoso, coletivo e profundamente português.