{"id":6969,"date":"2025-10-05T08:00:00","date_gmt":"2025-10-05T07:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/bs.xl.pt\/um-ano-de-cultura\/?p=6969"},"modified":"2025-10-03T11:04:34","modified_gmt":"2025-10-03T10:04:34","slug":"braga-recupera-a-memoria-das-mulheres-invisiveis-no-estado-novo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bs.xl.pt\/um-ano-de-cultura\/cobertura\/braga-recupera-a-memoria-das-mulheres-invisiveis-no-estado-novo\/","title":{"rendered":"Braga recupera a mem\u00f3ria das mulheres \u201cinvis\u00edveis\u201d no Estado Novo"},"content":{"rendered":"\n<p>A aus\u00eancia de uma mem\u00f3ria coletiva feminina na hist\u00f3ria de Braga \u00e9 o ponto de partida do projeto comunit\u00e1rio \u201cOnde (n\u00e3o) estavam elas?\u201d, que articula imagens do esp\u00f3lio fotogr\u00e1fico do Arquivo Municipal de Braga (AMBRG) com testemunhos expostos num percurso sonoro criado no centro hist\u00f3rico e inaugurado na \u00faltima sexta-feira, 3 de outubro, pela autarquia. Uma iniciativa pensada no \u00e2mbito da Estrat\u00e9gia Cultural de Braga 2020-2030 e de Braga 25 \u2013 Capital Portuguesa da Cultura. <\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOnde estavam as mulheres que vinham do campo para a cidade, vender produtos ou servir nas casas dos outros? Onde estavam as que sonhavam ter ido estudar? Onde estavam as mulheres que faziam jornada dupla para sustentar a fam\u00edlia? Onde estavam as que n\u00e3o encaixavam nos valores vigentes? Onde (n\u00e3o) estavam elas?\u201d, questiona a associa\u00e7\u00e3o social e cultural PELE, respons\u00e1vel pela dire\u00e7\u00e3o art\u00edstica do projeto promovido pelo Arquivo Municipal de Braga. Uma poss\u00edvel interpreta\u00e7\u00e3o est\u00e1 nas ruas do centro hist\u00f3rico da cidade em forma de narrativa coletiva feminina e no AMBRG. Um percurso formado por testemunhos agrupados dos seniores do Centro Social de Cunha e patente no espa\u00e7o p\u00fablico at\u00e9 ao dia 23 de novembro, exp\u00f5e mem\u00f3rias pessoais e coletivas. O mote deste \u201csoudwalk\u201d foram imagens dos fundos fotogr\u00e1ficos do AMBRG, onde se inicia o trajeto.<\/p>\n\n\n<div class=\"uk-inline\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.xl.pt\/bs\/uploads\/sites\/208\/2025\/10\/Dupla-Braga-25-de-5-de-outubro-1200x630.jpg\" alt=\"Braga recupera a mem\u00f3ria das mulheres \u201cinvis\u00edveis\u201d no Estado Novo\" loading=\"lazy\" \/><\/div><p class=\"uk-hidden@s uk-text-small uk-text-muted uk-margin-small-top uk-margin-medium-bottom uk-text-left\"><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Estado Novo em reflex\u00e3o<\/strong><br>O projeto contemplou ainda a realiza\u00e7\u00e3o da oficina Retratos de Fam\u00edlia, no s\u00e1bado, 4 de outubro, direcionada para fam\u00edlias. Fiel a um dos temas trabalhados pelo AMBRG ao longo do ano, as fotografias representativas de la\u00e7os de parentesco, a oficina com curadoria da associa\u00e7\u00e3o PELE explorou a encena\u00e7\u00e3o dos valores sociais nas imagens de outros tempos. <\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u2018Onde (n\u00e3o) estavam elas?\u2019 \u00e9 um \u00fanico projeto que se concretiza na realiza\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias iniciativas, desenvolvido em parceria com a PELE. Integrado no programa MEMORAR \u2013 Programa de Media\u00e7\u00e3o do Arquivo Municipal de Braga, \u00e9 um projeto de natureza participativa, que pretende promover a reflex\u00e3o em torno da presen\u00e7a e aus\u00eancia da mulher na sociedade bracarense, especialmente no contexto do Estado Novo\u201d, explica a dirigente da Divis\u00e3o do Arquivo Municipal, Fernanda Sousa. O programa MEMORAR \u201cassenta a sua a\u00e7\u00e3o no princ\u00edpio de que a mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 apenas aquilo que se conserva, mas tamb\u00e9m aquilo que se ativa, se interpreta, se discute e se transforma coletivamente\u201d, nas palavras do respons\u00e1vel. \u201cNesse sentido, procura n\u00e3o s\u00f3 valorizar os fundos e cole\u00e7\u00f5es \u00e0 guarda do AMBRG, mas tamb\u00e9m integrar as mem\u00f3rias vividas e as vozes das comunidades, enquanto componentes essenciais de um arquivo mais inclusivo, plural e significativo\u201d, conta.<\/p>\n\n\n<blockquote class=\"uk-margin-medium\"><span uk-icon=\"icon: quote-right; ratio: 4.0\"><\/span><h3 class=\"uk-margin-top uk-margin-bottom\">Mais do que conservar documentos, trata-se de lhes dar vida atrav\u00e9s da comunidade, permitindo que mem\u00f3rias individuais e coletivas se cruzem, dialoguem e se convertam em patrim\u00f3nio.<\/h3><\/blockquote>\n\n\n\n<p><strong>Ponto de partida no Dia da Mulher <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tratando-se de uma proposta centrada no generalizado anonimato do feminino na esfera p\u00fablica e privada da cidade, \u201cOnde (n\u00e3o) estavam elas?\u201d iniciou-se numa data simb\u00f3lica, Dia Internacional da Mulher, a 8 de mar\u00e7o, no AMBRG. As investigadoras Ana Macedo, Carla Cerqueira e In\u00eas Lapa juntaram-se a docentes, estudantes e cidad\u00e3os interessados pela tem\u00e1tica e a fotografia para uma conversa aberta, desencadeada a partir de dois fundos do AMBRG, Photographia Alian\u00e7a e Casa Pelicano. \u201cO momento inaugural do projeto permitiu oferecer \u00e0 reflex\u00e3o o tema da presen\u00e7a e aus\u00eancia da figura feminina na esfera social sob diferentes perspetivas, proporcionando o di\u00e1logo e a discuss\u00e3o entre a comunidade acad\u00e9mica e o p\u00fablico em geral, promovendo pontos entre os diferentes atores e intervenientes. A natureza participativa do projeto revela-se nesta din\u00e2mica, na qual a interven\u00e7\u00e3o dos v\u00e1rios parceiros \u2013 arquivo, conce\u00e7\u00e3o art\u00edstica, academia, institui\u00e7\u00e3o de solidariedade social e comunidade \u2013 se assume n\u00e3o apenas como um ponto de partida, mas tamb\u00e9m como o pr\u00f3prio resultado\u201d, explica Fernanda Sousa. \u201cOnde (n\u00e3o) estavam elas?\u201d evidencia o potencial do AMBRG como espa\u00e7o cultural e de cidadania. Para o diretor do Departamento de Cultura e Turismo, \u201cmais do que conservar documentos, trata-se de lhes dar vida atrav\u00e9s da comunidade, permitindo que mem\u00f3rias individuais e coletivas se cruzem, dialoguem e se convertam em patrim\u00f3nio\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Portugalidade encenada <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nos meses seguintes \u00e0 sess\u00e3o na sala cheia do AMBRG, o projeto evoluiu para a din\u00e2mica proporcionada pelo grupo s\u00e9nior do Centro Social de Cunha. A escolha desta institui\u00e7\u00e3o de solidariedade social obedeceu a crit\u00e9rios alinhados com o programa MEMORAR. \u201c\u00c9 uma entidade com resposta social de Centro de Dia, situada numa freguesia lim\u00edtrofe, concordante com a estrat\u00e9gia de descentraliza\u00e7\u00e3o cultural e a garantir participa\u00e7\u00e3o equilibrada entre homens e mulheres\u201d, justifica Fernanda Sousa.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante as sess\u00f5es coletivas, uma equipa da associa\u00e7\u00e3o PELE criou din\u00e2micas para criar resson\u00e2ncias entre as fotografias e as viv\u00eancias dos participantes. Prop\u00f4s uma reflex\u00e3o sobre v\u00e1rios temas: vida e trabalho, inf\u00e2ncias duras e abreviadas, diferen\u00e7as de g\u00e9nero no acesso \u00e0 escolaridade, papel da mulher e expectativas sociais, namoros e casamento, evolu\u00e7\u00e3o de estere\u00f3tipos de g\u00e9nero, entre outros. Numa fase posterior, a PELE realizou sess\u00f5es individuais com alguns dos participantes, procurando aprofundar a partilha das viv\u00eancias e registar esses testemunhos com vista \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do \u201csoudwalk\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>Cada fotografia selecionada expunha mem\u00f3rias e revelava invisibilidades. Aus\u00eancias ampliadas pelo contexto do Estado Novo em Portugal, que restringia os pap\u00e9is femininos \u00e0 esfera privada, limitando a participa\u00e7\u00e3o da mulher no espa\u00e7o p\u00fablico. \u201cO projeto demonstrou que a forma restrita como o rural \u00e9 representado nas fotografias de arquivo, numa esp\u00e9cie de \u2018portugalidade encenada\u2019, \u00e9 muito diferente das condi\u00e7\u00f5es de pobreza em que viviam muitas destas pessoas. Estas condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00f3 limitaram o acesso \u00e0 escolaridade e \u00e0 cidade (a maioria cresceu em freguesias rurais da periferia de Braga e apenas alguns vieram trabalhar para a cidade), como determinaram o acesso ao registo fotogr\u00e1fico da sua pr\u00f3pria realidade\u201d, conclui a equipa da PELE.<\/p>\n\n\n\n<p>As mulheres com presen\u00e7a no arquivo fotogr\u00e1fico \u201cn\u00e3o representam o todo social\u201d, segundo a associa\u00e7\u00e3o. \u201cNeste acervo est\u00e3o retratadas sobretudo aquelas que viviam em condi\u00e7\u00f5es socioecon\u00f3micas que lhes permitiam ser fotografadas.\u201d <\/p>\n\n\n<div class=\"uk-inline\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.xl.pt\/bs\/uploads\/sites\/208\/2025\/10\/dupla-braga-25-foto-3-1200x630.jpg\" alt=\"Braga recupera a mem\u00f3ria das mulheres \u201cinvis\u00edveis\u201d no Estado Novo\" loading=\"lazy\" \/><\/div><p class=\"uk-hidden@s uk-text-small uk-text-muted uk-margin-small-top uk-margin-medium-bottom uk-text-left\"><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cidade, som e imagem <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Cada pe\u00e7a do percurso sonoro do projeto \u201cOnde (n\u00e3o) estavam elas?\u201d est\u00e1 associada a uma fotografia do AMBRG. A PELE procurou espa\u00e7os espec\u00edficos da cidade para acolherem essas mem\u00f3rias. \u201cAssim, o percurso passa por alguns locais onde as fotografias foram realizadas, como o Convento do Carmo (onde esteve instalado o Col\u00e9gio Dublin) e o Largo de Bar\u00e3o de S. Martinho (onde se situava a Casa Pelicano, um dos mais relevantes est\u00fadios fotogr\u00e1ficos da cidade). <\/p>\n\n\n\n<p>Outros locais remetem simbolicamente para as tem\u00e1ticas impressas na fotografia e nas respetivas pe\u00e7as sonoras, nomeadamente o Jardim de Santa B\u00e1rbara (onde se exp\u00f5e a fotografia de uma noiva) e a Rua de Nossa Senhora do Leite (associado ao papel da mulher enquanto cuidadora)\u201d, descreve a associa\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>O percurso procura destacar as hist\u00f3rias femininas ocultadas, atrav\u00e9s da triangula\u00e7\u00e3o entre fotografias expostas, narrativas sonoras e espa\u00e7os simb\u00f3licos da cidade. Amplia a fun\u00e7\u00e3o do Arquivo Municipal de Braga na constru\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Arquivo Municipal de Braga criou o projeto comunit\u00e1rio \u201cOnde (n\u00e3o) estavam elas?\u201d, em torno da aus\u00eancia de uma mem\u00f3ria coletiva feminina na hist\u00f3ria da cidade. Fotografias e um percurso sonoro no centro hist\u00f3rico exp\u00f5em essa invisibilidade no per\u00edodo do Estado Novo.<\/p>\n","protected":false},"author":58,"featured_media":6978,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[135,13,19],"class_list":["post-6969","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cobertura","tag-arquivo-municipal-de-braga","tag-braga25","tag-um-ano-de-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/bs.xl.pt\/um-ano-de-cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6969","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/bs.xl.pt\/um-ano-de-cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/bs.xl.pt\/um-ano-de-cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bs.xl.pt\/um-ano-de-cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/58"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bs.xl.pt\/um-ano-de-cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6969"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/bs.xl.pt\/um-ano-de-cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6969\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6993,"href":"https:\/\/bs.xl.pt\/um-ano-de-cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6969\/revisions\/6993"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bs.xl.pt\/um-ano-de-cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6978"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/bs.xl.pt\/um-ano-de-cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6969"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/bs.xl.pt\/um-ano-de-cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6969"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/bs.xl.pt\/um-ano-de-cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6969"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}