{"id":548,"date":"2022-02-16T17:46:18","date_gmt":"2022-02-16T17:46:18","guid":{"rendered":"https:\/\/bs.xl.pt\/vida-sustentavel\/?p=548"},"modified":"2024-01-02T10:03:55","modified_gmt":"2024-01-02T10:03:55","slug":"consciencializar-para-a-diferenca-sem-rotular","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bs.xl.pt\/vida-sustentavel\/diversidade-e-inclusao\/consciencializar-para-a-diferenca-sem-rotular\/","title":{"rendered":"Consciencializar para a diferen\u00e7a sem rotular"},"content":{"rendered":"\n<p>Numa altura em que cada vez mais os temas de diversidade e inclus\u00e3o fazem parte das estrat\u00e9gias empresariais e sociais, contribuindo para uma maior criatividade e melhores resultados, continuam a existir obst\u00e1culos no processo de se alcan\u00e7ar uma sociedade capaz de eliminar a discrimina\u00e7\u00e3o. Por vezes, essas barreiras s\u00e3o criadas de forma inconsciente, mas de facto originam comportamentos e atitudes discriminat\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Para explicar melhor este conceito, <a href=\"https:\/\/www.linkedin.com\/in\/vmagalhaes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">V\u00e2nia Magalh\u00e3es<\/a>, representante em Portugal da <a href=\"https:\/\/masdiversity.com\/pt\/#home\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">+Diversity<\/a>, uma consultora especializada em processos estrat\u00e9gicos de diversidade, inclus\u00e3o e lideran\u00e7a inclusiva, refere que \u201co <strong>enviesamento inconsciente acontece quando nos deparamos com um conjunto de modelos mentais, dos quais n\u00e3o temos plena consci\u00eancia<\/strong>, <strong>e d\u00e3o origem a opini\u00f5es e comportamentos n\u00e3o inclusivos<\/strong>\u201d. S\u00e3o&nbsp;preconceitos formados de maneira antecipada, sem o devido conhecimento ou reflex\u00e3o sobre um determinado assunto. Muitas vezes inconscientes e em piloto autom\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>A representante em Portugal da +Diversity, formadora e <em>coach<\/em> especializada em \u00e1reas de desenvolvimento pessoal, alerta que \u201c<strong>\u00e9 muito comum no meio profissional associar um bom desempenho em posi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a \u00e0 universidade em que estudaram, sem que se tenham outras evid\u00eancias a corroborar<\/strong>. Ou entender que uma pessoa, porque ultrapassou determinada idade, \u00e9 resistente \u00e0 mudan\u00e7a e n\u00e3o abra\u00e7ar\u00e1 as mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas na empresa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><a><\/a>Outro exemplo, em contexto diferente, dado por V\u00e2nia Magalh\u00e3es \u00e9 \u201co de<strong> atravessar a rua para n\u00e3o se cruzar com algu\u00e9m cuja apar\u00eancia d\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o de perigo. Muitas vezes, a fronteira entre preconceito consciente e inconsciente \u00e9 t\u00e9nue<\/strong>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Novas formas de discrimina\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Sobre esta tem\u00e1tica, a investigadora, psic\u00f3loga social e das organiza\u00e7\u00f5es e professora do <a href=\"https:\/\/www.iscte-iul.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ISCTE<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.linkedin.com\/in\/miriam-rosa-45926928\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Miriam Rosa<\/a>, explica que \u201c<strong>se pode chamar a estes enviesamentos inconscientes de formas de discrimina\u00e7\u00e3o moderna<\/strong>\u201d. Para a investigadora, com o surgimento de leis antidiscrimina\u00e7\u00e3o, e normas de intera\u00e7\u00e3o nas quais se sinaliza que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel expressar preconceito abertamente, \u201c<strong>as pessoas encontraram formas novas de expressar os preconceitos existentes<\/strong>\u201d. Miriam Rosa refere que esses fen\u00f3menos come\u00e7aram a ser estudados no \u00e2mbito do racismo. \u201cNovos racismos, tais como <strong>racismo subtil, racismo aversivo ou racismo ambivalente<\/strong>, t\u00eam em comum a ideia de que as pessoas passaram a manifestar o racismo de formas menos flagrantes, mas com as mesmas consequ\u00eancias negativas, que no meio organizacional se traduzem em perda ou subaproveitamento de talento, conflitos, entre outros.\u201d<\/p>\n\n\n<blockquote class=\"uk-margin-medium\"><span uk-icon=\"icon: quote-right; ratio: 4.0\"><\/span><h3 class=\"uk-margin-top uk-margin-small-bottom\"> As pessoas passaram a manifestar o racismo de formas menos flagrantes, mas com as mesmas consequ\u00eancias negativas, que no meio organizacional se traduzem em perda ou subaproveitamento de talento, conflitos, entre outros.<\/h3><footer><cite>Miriam Rosa, investigadora, psic\u00f3loga social e das organiza\u00e7\u00f5es e professora do ISCTE.<\/cite><\/footer><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A investigadora e psic\u00f3loga social salienta que \u201cj\u00e1 se percebeu que o <strong>mesmo acontece com outras formas de preconceito e discrimina\u00e7\u00e3o como, por exemplo, o sexismo ou o idadismo (discrimina\u00e7\u00e3o com base na idade)<\/strong>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Como exemplo pr\u00e1tico destas situa\u00e7\u00f5es a investigadora refere o caso de, \u201cnuma entrevista de emprego, os\/as recrutadores\/as darem menos tempo, fazerem menos contacto visual, ou sentarem-se mais longe de candidatos\/as que perten\u00e7am ao grupo social sobre o qual existe enviesamento\u201d. S\u00e3o comportamentos que no seu entender \u201cinfluenciam o nervosismo e o desempenho desses\/as candidatos\/as\u201d. E, sublinha a ideia de que, \u201c<strong>o enviesamento inconsciente \u00e9 uma esp\u00e9cie de termo mais \u2018comercial\u2019 para essas formas de preconceito subtil<\/strong>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Perante a pergunta se rotular \u00e9 o vetor comum quando se fala de enviesamento inconsciente, Miriam Rosa garante que \u201crotular faz parte, mas n\u00e3o conta a hist\u00f3ria toda\u201d. Existe um trio de fatores envolvidos e que s\u00e3o muitas vezes dif\u00edceis de separar.<\/p>\n\n\n\n<p>A investigadora e professora auxiliar convidada no ISCTE detalha que <strong>o primeiro fator s\u00e3o os estere\u00f3tipos<\/strong>. \u201cA tal rotulagem, ou seja, pensar que determinada pessoa, por fazer parte de um determinado grupo, tem for\u00e7osamente um conjunto de caracter\u00edsticas.\u201d Reconhece que estereotipar \u00e9 extremamente \u00fatil porque nos permite poupar recursos cognitivos, mas muitas vezes implica enviesamentos. Exemplifica este cen\u00e1rio: \u201cImagine uma equipa de parceiros alem\u00e3es numa reuni\u00e3o de neg\u00f3cios achar que o Jo\u00e3o vai chegar atrasado porque \u00e9 portugu\u00eas, e os portugueses e portuguesas chegam sempre com atraso (quando o Jo\u00e3o at\u00e9 pode ser muito pontual).\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O <strong>segundo fator \u00e9 o<\/strong> <strong>preconceito<\/strong>. \u201cUm sentimento geralmente negativo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quela pessoa porque pertence \u00e0quele grupo, e que vai formar uma avalia\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m ela negativa.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O<strong> terceiro e \u00faltimo fator \u00e9 a discrimina\u00e7\u00e3o<\/strong>. \u201cQuando juntamos a parte cognitiva (estere\u00f3tipos) \u00e0 parte afetiva (preconceito) temos as condi\u00e7\u00f5es reunidas para o terceiro fator, que \u00e9 a discrimina\u00e7\u00e3o (comportamento propriamente dito).\u201d<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Como combater os enviesamentos?<\/h2>\n\n\n\n<p>Se os enviesamentos s\u00e3o inconscientes, como se podem gerir e combater? Miriam Rosa afirma que, para conseguir chegar a esse preconceito subtil, <strong>alguns psic\u00f3logos e psic\u00f3logas sociais propuseram o chamado <a href=\"https:\/\/implicit.harvard.edu\/implicit\/brazil\/\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/implicit.harvard.edu\/implicit\/brazil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">teste de associa\u00e7\u00e3o impl\u00edcita<\/a>, que hoje se pode fazer rapidamente pela Internet<\/strong>, e que usa o tempo que uma pessoa leva a reagir a dois est\u00edmulos (palavras, imagens) como um indicador da for\u00e7a com que est\u00e3o associados. A professora do ISCTE refere, por exemplo, que \u201cse uma pessoa leva menos tempo a associar a palavra \u2018homem\u2019 \u00e0 palavra \u2018competente\u2019 do que a palavra \u2018mulher\u2019, poder\u00e1 significar uma associa\u00e7\u00e3o mais positiva e prefer\u00eancia por homens no trabalho\u201d. Atribuir este teste a preconceito e discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9 algo que tem sido alvo de muita controv\u00e9rsia no meio acad\u00e9mico, e visto com muita cautela. No entanto, \u201ca ideia chegou ao mercado dilu\u00edda e sem filtros, como tantas outras, e com grande popularidade, mas tamb\u00e9m com v\u00e1rios riscos\u201d, alerta.<\/p>\n\n\n<blockquote class=\"uk-margin-medium\"><span uk-icon=\"icon: quote-right; ratio: 4.0\"><\/span><h3 class=\"uk-margin-top uk-margin-small-bottom\">As organiza\u00e7\u00f5es t\u00eam estado cada vez mais sens\u00edveis \u00e0 diversidade, o que \u00e9 um \u00f3timo sinal. V\u00e1rias a\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o e sensibiliza\u00e7\u00e3o t\u00eam sido realizadas sobre enviesamentos inconscientes, com a ideia de os trazer \u00e0 superf\u00edcie para se poder agir sobre eles.<\/h3><footer><cite> Miriam Rosa, investigadora, psic\u00f3loga social e das organiza\u00e7\u00f5es e professora do ISCTE.<\/cite><\/footer><\/blockquote>\n\n\n\n<p>As organiza\u00e7\u00f5es t\u00eam estado cada vez mais sens\u00edveis \u00e0 diversidade, o que \u00e9 um \u00f3timo sinal. V\u00e1rias a\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o e sensibiliza\u00e7\u00e3o t\u00eam sido realizadas sobre enviesamentos inconscientes, com a ideia de os trazer \u00e0 superf\u00edcie para se poder agir sobre eles. A investigadora destaca que apesar de essas iniciativas serem louv\u00e1veis e bem-intencionadas, \u201cs\u00e3o muitas vezes apresentadas como algo normalizado, uma narrativa do tipo <strong>todos temos enviesamentos inconscientes, o que pode acabar por ter o efeito contr\u00e1rio e, em vez de prevenir o preconceito, banaliza-o ou desinibe-o<\/strong>. Se todos temos esses enviesamentos, ent\u00e3o \u00e9 algo normal e n\u00e3o h\u00e1 como os modificar, n\u00e3o somos respons\u00e1veis por eles, ou at\u00e9 mais vale assumi-los abertamente.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ter a no\u00e7\u00e3o dos enviesamentos n\u00e3o leva automaticamente a mudar o comportamento para melhor, at\u00e9 porque depende do tipo de preconceito em quest\u00e3o. Miriam Rosa deixa um alerta. \u201cForam realizados v\u00e1rios estudos sobre a efic\u00e1cia deste tipo de forma\u00e7\u00f5es desde o in\u00edcio dos anos 2000, e as indica\u00e7\u00f5es s\u00e3o bastante desanimadoras.\u201d Admite que \u201c<strong>se bem geridas, estas forma\u00e7\u00f5es podem ser ferramentas importantes, quando acompanhadas de estrat\u00e9gias de a\u00e7\u00e3o. \u00c9 aqui que entra uma t\u00e3o necess\u00e1ria sinergia entre as organiza\u00e7\u00f5es e a investiga\u00e7\u00e3o, que possa ir al\u00e9m de <\/strong><strong>sensibilizar os indiv\u00edduos, e fa\u00e7a uma avalia\u00e7\u00e3o de necessidades concretas e da forma como o preconceito e a discrimina\u00e7\u00e3o s\u00e3o tratados na organiza\u00e7\u00e3o como um todo<\/strong>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para responder \u00e0 pergunta como se pode combater este tipo de comportamentos, V\u00e2nia Magalh\u00e3es \u00e9 perent\u00f3ria: \u201c<strong>Tomando consci\u00eancia<\/strong>. S\u00f3 tomando consci\u00eancia se podem tomar medidas concretas e gerar estrat\u00e9gias para os ultrapassar e come\u00e7ar a criar sistemas para evitar que os preconceitos interfiram nas nossas decis\u00f5es e na maneira como nos relacionamos.\u201d<\/p>\n\n\n<blockquote class=\"uk-margin-medium\"><span uk-icon=\"icon: quote-right; ratio: 4.0\"><\/span><h3 class=\"uk-margin-top uk-margin-small-bottom\">S\u00f3 tomando consci\u00eancia se podem tomar medidas concretas e gerar estrat\u00e9gias para os ultrapassar e come\u00e7ar a criar sistemas para evitar que os preconceitos interfiram nas nossas decis\u00f5es e na maneira como nos relacionamos.\u201d <\/h3><footer><cite>V\u00e2nia Magalh\u00e3es, representante em Portugal da +Diversity, formadora e coach especializada em \u00e1reas de desenvolvimento pessoal.<\/cite><\/footer><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Reconhecer a exist\u00eancia de preconceito \u00e9 mesmo o primeiro passo. V\u00e2nia Magalh\u00e3es admite que s\u00e3o cada vez mais as empresas e as entidades que est\u00e3o a criar departamentos ou planos de a\u00e7\u00e3o de diversidade e inclus\u00e3o abordando estas tem\u00e1ticas no seu planeamento e atividades. No entanto, \u00e9 necess\u00e1rio que esta realidade saia do papel e existam a\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas e concretas nas organiza\u00e7\u00f5es. \u201cA diversidade \u00e9 uma mais-valia, somos a soma das pessoas que nos rodeiam, quanto mais diversa uma equipa, um departamento, um grupo de amigos, mais pontos de vista se recolhem, mais rica \u00e9 a experi\u00eancia\u201d, diz a representante portuguesa da +Diversity, acrescentando que \u201c<strong>do lado das empresas ainda h\u00e1 um longo caminho a percorrer, talvez haja boa inten\u00e7\u00e3o, mas falta muita a\u00e7\u00e3o<\/strong>\u201d. V\u00e2nia Magalh\u00e3es acredita que muitas vezes a inclus\u00e3o n\u00e3o sai do papel, e <strong>na pr\u00e1tica n\u00e3o se verifica uma cultura organizacional verdadeiramente inclusiva e diversa e em que impera a seguran\u00e7a psicol\u00f3gica e a verdadeira conex\u00e3o entre as pessoas<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Sugere ainda que o trabalho passa por ultrapassar os preconceitos e promover ativamente a inclus\u00e3o de determinados grupos de pessoas a quem n\u00e3o s\u00e3o dadas as mesmas oportunidades. \u201c<strong>N\u00e3o podemos fazer da inclus\u00e3o uma bandeira em dias tem\u00e1ticos e postar nas redes sociais, ou criar materiais de <em>marketing<\/em> com imagens inclusivas e depois a realidade das organiza\u00e7\u00f5es estar longe de o ser e onde os\/as colaboradores\/as e clientes n\u00e3o se sentem integrados\/as por causa das suas diferen\u00e7as, ou n\u00e3o veem assegurados os mesmos benef\u00edcios ou, onde o tema n\u00e3o \u00e9 sequer debatido e \u00e9 mesmo tabu<\/strong>\u201d. Reconhece que h\u00e1 muito caminho j\u00e1 feito, mas acredita que realmente h\u00e1 muito trabalho pela frente que exige o envolvimento de todas as partes interessadas, organismos p\u00fablicos, empresas, trabalhadores e trabalhadoras das empresas, sociedade civil, <em>media,<\/em> no sentido da consciencializa\u00e7\u00e3o do que ainda se vive.<\/p>\n\n\n<blockquote class=\"uk-margin-medium\"><span uk-icon=\"icon: quote-right; ratio: 4.0\"><\/span><h3 class=\"uk-margin-top uk-margin-small-bottom\"> A diversidade \u00e9 uma mais-valia. Somos a soma das pessoas que nos rodeiam, quanto mais diversa for uma equipa, um departamento, um grupo de amigos, mais pontos de vista se recolhem, e mais rica \u00e9 a experi\u00eancia.\u201d <\/h3><footer><cite>V\u00e2nia Magalh\u00e3es, representante em Portugal da +Diversity, formadora e coach especializada em \u00e1reas de desenvolvimento pessoal.<\/cite><\/footer><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Para concluir, V\u00e2nia Magalh\u00e3es advoga a necessidade urgente de uma mudan\u00e7a de paradigma que entenda que \u201c<strong>a diversidade \u00e9 catalisadora do crescimento e desenvolvimento organizacional e pode mesmo ter impacto nos seus indicadores econ\u00f3micos como j\u00e1 vem sendo divulgado pela Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho<\/strong>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Miriam Rosa, investigadora e professora do ISCTE, tamb\u00e9m corrobora que as empresas est\u00e3o cada vez mais atentas a estas quest\u00f5es, procurando saber mais sobre enviesamentos. \u201cJ\u00e1 perceberam que, <strong>num mundo globalizado e diverso, \u00e9 muito importante abra\u00e7ar e gerir a diversidade na for\u00e7a de trabalho. Embora isto n\u00e3o se aplique a todas as empresas, \u00e9 um sinal extremamente positivo<\/strong>\u201d, mas reconhece que algumas empresas est\u00e3o a ficar apenas por \u201cum conjunto de a\u00e7\u00f5es de sensibiliza\u00e7\u00e3o cuja efic\u00e1cia, a ser alguma, \u00e9 de curto prazo, o que \u00e9 uma pena se essa for a \u00fanica forma de atua\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a psic\u00f3loga social e das organiza\u00e7\u00f5es, para combater os enviesamentos, \u201c<strong>as empresas podem desenvolver e promover compet\u00eancias, tais como a tomada de perspetiva sobre os outros<\/strong>\u201d. Muitas vezes, basta tirar o foco de um discurso de combater os enviesamentos, ou reduzir a discrimina\u00e7\u00e3o, para um discurso sobre aumentar a inclus\u00e3o. \u00c9 desej\u00e1vel promover um ambiente em que as pessoas sentem que pertencem \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o, e que s\u00e3o valorizadas por aquilo que s\u00e3o e pelo contributo \u00fanico que trazem. Em termos de a\u00e7\u00f5es mais vis\u00edveis, a mais imediata \u00e9 \u201c<strong>n\u00e3o tolerar situa\u00e7\u00f5es de discrimina\u00e7\u00e3o na empresa, das mais flagrantes \u00e0s mais subtis<\/strong>\u201d, defende Miriam Rosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra a\u00e7\u00e3o passa por um trabalho mais de fundo, por <strong>criar regras e procedimentos claros e uniformizados, de forma que as pessoas de grupos n\u00e3o discriminados tamb\u00e9m sejam inclu\u00eddas e n\u00e3o sintam que v\u00e3o ficar a perder<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Eternas desigualdades com base no g\u00e9nero ou na orienta\u00e7\u00e3o sexual<\/h2>\n\n\n\n<p>No mundo do trabalho, e quando se fala de preconceitos, ainda subsistem muitos casos de desigualdade na forma de tratar homens e mulheres. A presidente da <a href=\"https:\/\/www.cig.gov.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Comiss\u00e3o para a Cidadania e Igualdade do G\u00e9nero<\/a> (CIG), <a href=\"https:\/\/www.linkedin.com\/in\/sandra-ribeiro-820435b3\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Sandra Ribeiro<\/a>, sublinha que o foco de atua\u00e7\u00e3o desta entidade s\u00e3o \u201cas quest\u00f5es das desigualdades entre homens e mulheres e tamb\u00e9m os direitos das pessoas LGBTI (l\u00e9sbicas, gays, bissexuais, transexuais e intersexuais). S\u00e3o duas \u00e1reas em que h\u00e1 muito a l\u00f3gica dos enviesamentos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Sandra Ribeiro refere que, nesta l\u00f3gica, \u201c<strong>surgem situa\u00e7\u00f5es em que parece que n\u00e3o h\u00e1 discrimina\u00e7\u00e3o nenhuma, parece que \u00e9 tudo regular e dentro das normas, mas na verdade h\u00e1 um falso normal<\/strong>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A t\u00edtulo de exemplo aponta casos em que, no ambiente profissional, se marcam as a\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o fora do per\u00edodo normal de trabalho, ao final da tarde ou princ\u00edpio da noite, nas quais se percebe que h\u00e1 muito mais homens do que mulheres a frequentar. Sandra Ribeiro sublinha que \u201cparece que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma situa\u00e7\u00e3o de discrimina\u00e7\u00e3o, mas percebemos que, de uma forma geral, s\u00e3o as mulheres que fazem mais tarefas dom\u00e9sticas, logo s\u00e3o elas que no fim da jornada t\u00eam menos disponibilidade para irem fazer uma a\u00e7\u00e3o de forma\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A presidente da CIG explica que \u201c<strong>este enviesamento acaba por incorporar aquelas situa\u00e7\u00f5es de discrimina\u00e7\u00e3o indiretas, que n\u00e3o s\u00e3o muitas vezes conscientes<\/strong>. Mas \u00e9 a forma como a sociedade v\u00ea o papel de mulheres e homens que nos faz atuar de uma certa maneira, pensando que estamos a ser neutrais, mas na verdade estamos, com o enviesamento de g\u00e9nero, a criar medidas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00e1rea laboral, muitas vezes h\u00e1 a\u00e7\u00f5es de concilia\u00e7\u00e3o da vida pessoal com a profissional dirigidas, sobretudo, \u00e0s mulheres para que tenham mais oportunidades para estar com os filhos e filhas. Face a este cen\u00e1rio, Sandra Ribeiro questiona: \u201cPorqu\u00ea dirigidas \u00e0s mulheres? S\u00f3 as mulheres \u00e9 que precisam de conciliar? J\u00e1 se parte do princ\u00edpio de que s\u00f3 s\u00e3o as mulheres quem trata das crian\u00e7as e da casa.\u201d E defende que: \u201c\u00c9 a normalidade institu\u00edda que nos faz, normalmente, ter pensamentos ou medidas com enviesamento de g\u00e9nero sem estarmos conscientes de que estamos com esse enviesamento.\u201d E, mais uma vez, surgem os r\u00f3tulos, em que o denominador comum s\u00e3o os estere\u00f3tipos e os preconceitos.<\/p>\n\n\n<blockquote class=\"uk-margin-medium\"><span uk-icon=\"icon: quote-right; ratio: 4.0\"><\/span><h3 class=\"uk-margin-top uk-margin-small-bottom\">Podemos estar a criar enviesamentos de g\u00e9nero praticamente insond\u00e1veis, que nos passam ao lado, porque v\u00eam atrav\u00e9s destes algoritmos.\u201d<\/h3><footer><cite>Sandra Ribeiro, presidente da Comiss\u00e3o para a Cidadania e Igualdade do G\u00e9nero.<\/cite><\/footer><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A presidente da CIG alerta ainda que, nesta fase, em que se est\u00e1 a viver a transi\u00e7\u00e3o digital, h\u00e1 uma nova \u201cdimens\u00e3o que se torna mais perigosa ou mais dif\u00edcil de detetar estes enviesamentos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto porque <strong>cada vez mais se utilizam os algoritmos para a coordena\u00e7\u00e3o de trabalhos em v\u00e1rias \u00e1reas ou mesmo para a disponibiliza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os p\u00fablicos e privados<\/strong>. De acordo com Sandra Ribeiro, devido ao facto de a maioria das pessoas que trabalham em tecnologias serem do sexo masculino, \u201c<strong>a maior parte dos algoritmos que v\u00e3o sendo criados s\u00e3o feitos por homens e muitas vezes t\u00eam em conta, n\u00e3o conscientemente, as preocupa\u00e7\u00f5es masculinas, os gostos e as necessidades masculinas<\/strong>\u201d. Por isso, conclui que \u201cpoderemos estar a criar enviesamentos de g\u00e9nero praticamente insond\u00e1veis, que nos passam ao lado, porque v\u00eam atrav\u00e9s destes algoritmos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro exemplo que considera interessante, sobre enviesamento de g\u00e9nero, acontece na ind\u00fastria autom\u00f3vel, normalmente tida como muito masculina. Os carros s\u00e3o quase sempre pensados para os homens, j\u00e1 que s\u00e3o eles quem conduz mais, s\u00e3o mais atra\u00eddos pelas m\u00e1quinas e pela velocidade. Tamb\u00e9m j\u00e1 se constatou que <strong>o pr\u00f3prio tamanho dos <em>airbags<\/em>, a dist\u00e2ncia entre o banco e o volante, \u00e9 tudo pensado tendo em conta a altura m\u00e9dia dos homens e n\u00e3o das mulheres<\/strong>. \u201cEstas s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es de discrimina\u00e7\u00e3o, de enviesamento de g\u00e9nero, que quem o est\u00e1 a fazer n\u00e3o est\u00e1 a achar que est\u00e1 a ser discriminat\u00f3rio\u201d, logo \u00e9 inconsciente.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Sandra Ribeiro, \u201cas ferramentas para atacar estas situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o a informa\u00e7\u00e3o, o esclarecimento e a educa\u00e7\u00e3o, para que a sociedade seja menos estereotipada e tenha menos desigualdades. As nossas crian\u00e7as devem ser educadas para a igualdade e n\u00e3o nos preconceitos que nos passam despercebidos, mas que, efetivamente, passam de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A presidente da CIG real\u00e7a que as empresas fazem parte do tecido social, sendo que <strong>todo o <em>status quo<\/em> ainda marcado pela desigualdade de g\u00e9nero \u00e9 transversal a todas as \u00e1reas de atividade<\/strong>. Admite que nas multinacionais j\u00e1 existe, com alguma sustentabilidade, \u201cum investimento grande em pol\u00edticas de gest\u00e3o para a inclus\u00e3o, para a diversidade e para a promo\u00e7\u00e3o da igualdade entre homens e mulheres\u201d. At\u00e9 porque, de acordo com Sandra Ribeiro, \u201c<strong>s\u00e3o as grandes empresas que conseguem perceber que tiram dividendos quando se tem diversidade e, naturalmente, maior criatividade. Essas empresas t\u00eam cada vez melhores resultados.<\/strong>\u201d<\/p>\n\n\n<blockquote class=\"uk-margin-medium\"><span uk-icon=\"icon: quote-right; ratio: 4.0\"><\/span><h3 class=\"uk-margin-top uk-margin-small-bottom\"> As ferramentas para atacar estas situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o a informa\u00e7\u00e3o, o esclarecimento e a educa\u00e7\u00e3o, para que a sociedade seja menos estereotipada e tenha menos desigualdades.\u201d<\/h3><footer><cite>Sandra Ribeiro, presidente da Comiss\u00e3o para a Cidadania e Igualdade do G\u00e9nero.<\/cite><\/footer><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Sobre a compara\u00e7\u00e3o entre a realidade portuguesa com os restantes pa\u00edses, a presidente da CIG reconhece que \u201c<strong>n\u00e3o estamos piores, estamos a evoluir devagar. H\u00e1 cada vez mais empresas que est\u00e3o em Portugal que s\u00e3o bons exemplos e que t\u00eam boas pr\u00e1ticas<\/strong>, sendo at\u00e9 parceiros da CIG e das plataformas e pactos que v\u00e3o sendo feitos para a promo\u00e7\u00e3o da igualdade nas empresas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, n\u00e3o nega que \u201c<strong>quando se olha para a desigualdade salarial, para o n\u00famero de mulheres em cargos de dire\u00e7\u00e3o face aos homens, ou quando se v\u00ea que a segrega\u00e7\u00e3o profissional<\/strong> continua a ser enorme, com a esmagadora maioria dos homens nas \u00e1reas das ci\u00eancias e das engenharias e as mulheres a continuarem nas \u00e1reas de cuidado, <strong>n\u00e3o podemos dizer, genericamente, que haja uma grande evolu\u00e7\u00e3o<\/strong>\u201d. Mas, Sandra Ribeiro destaca que \u201co assunto est\u00e1 na agenda dos decisores, o tema \u00e9 debatido pela comunica\u00e7\u00e3o social, \u00e9 promovido pelos governos. \u00c9 uma mat\u00e9ria que ganhou a dignidade que merecia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre os direitos da comunidade LGBTI, Sandra Ribeiro afirma que, nos \u00faltimos anos, tem havido um progresso enorme, nomeadamente, ao n\u00edvel da legisla\u00e7\u00e3o nacional e das pol\u00edticas p\u00fablicas. Detalha que, h\u00e1 12 anos que no Pa\u00eds h\u00e1 a possibilidade de casamento entre pessoas do mesmo sexo, sendo dos primeiros Estados-membros a legislar nesse sentido. H\u00e1 a possibilidade de ado\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as por pessoas do mesmo sexo. \u201c<strong>Em Portugal reconhecemos os direitos das pessoas LGBTI e houve um grande progresso na legisla\u00e7\u00e3o sobre as pessoas trans no seu direito \u00e0 identidade de g\u00e9nero<\/strong>\u201d, refere Sandra Ribeiro, reconhecendo que, ainda assim, as mentalidades n\u00e3o se mudam por decreto. Se na teoria h\u00e1 uma evolu\u00e7\u00e3o, a quest\u00e3o coloca-se na pr\u00e1tica. \u201c<strong>Ainda temos muitas dificuldades e h\u00e1 uma grande censura social referente \u00e0s pessoas LGBTI<\/strong>\u201d, conclui a presidente da CIG.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em menos de um segundo, a nossa mente avalia, categoriza e produz julgamentos acerca das outras pessoas com base em caracter\u00edsticas como o g\u00e9nero, ra\u00e7a ou etnia, idade, orienta\u00e7\u00e3o sexual, entre outras, o que acaba por resultar em preconceitos ou enviesamentos inconscientes.<\/p>\n","protected":false},"author":23,"featured_media":569,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[242,227,50,239,233,236,230],"class_list":["post-548","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-diversidade-e-inclusao","tag-comissao-para-a-cidadania-e-igualdade-do-genero","tag-enviesamento-inconsciente","tag-grupo-ageas-portugal","tag-iscte","tag-miriam-rosa","tag-sandra-ribeiro","tag-vania-magalhaes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/bs.xl.pt\/vida-sustentavel\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/548","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/bs.xl.pt\/vida-sustentavel\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/bs.xl.pt\/vida-sustentavel\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bs.xl.pt\/vida-sustentavel\/wp-json\/wp\/v2\/users\/23"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bs.xl.pt\/vida-sustentavel\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=548"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/bs.xl.pt\/vida-sustentavel\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/548\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":596,"href":"https:\/\/bs.xl.pt\/vida-sustentavel\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/548\/revisions\/596"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bs.xl.pt\/vida-sustentavel\/wp-json\/wp\/v2\/media\/569"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/bs.xl.pt\/vida-sustentavel\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=548"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/bs.xl.pt\/vida-sustentavel\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=548"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/bs.xl.pt\/vida-sustentavel\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=548"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}