Ambição, energia e potencial
Não faltam portugueses para fazer voluntariado, mas sim condições para o transformar em impacto duradouro.
Não faltam portugueses para fazer voluntariado, mas sim condições para o transformar em impacto duradouro.
O painel subordinado ao tema “O voluntariado como força invisível que mantém a missão social de pé” revelou um consenso claro entre os cinco intervenientes. Há vontade, energia e potencial, mas faltam estrutura, reconhecimento e integração estratégica para transformar essa disponibilidade em impacto duradouro. Do diagnóstico da CASES (Cooperativa António Sérgio para a Economia Social) à valorização do voluntariado como experiência transformadora, passando pelos exemplos concretos de Maia, Cascais e Vila Nova de Gaia, ficou patente que o desafio já não se resume à mobilização de voluntários, mas sim à criação de condições para que seja sustentável, visível e parte efetiva das políticas públicas e da cultura organizacional.
Em Portugal, o voluntariado vive um paradoxo: a disponibilidade para o voluntariado esbarra na falta de condições para o transformar em ação estruturada. O diagnóstico é traçado por Carla Ventura, a partir do trabalho desenvolvido CASES, e assenta em “níveis de participação a colocar o país na cauda da Europa”, segundo a vice-presidente da entidade responsável pela definição de políticas públicas nesta área, em fase de dissolução.
A atualização do inquérito ao trabalho voluntário, promovida em articulação com o Instituto Nacional de Estatística com base na ferramenta conta-satélite da economia social, revelou uma quebra face a 2012. Apenas cerca de seis por cento dos portugueses afirmavam, em 2018, fazer voluntariado de forma regular. Mas o diagnóstico da CASES, desta vez centrado nas organizações promotoras, revela uma realidade mais complexa porque existe “energia, motivação e expectativa de crescimento”, faltando estruturas e recursos.
Seis por cento é muito abaixo de um país que já teve mais de um milhão de pessoas envolvidas em ações de voluntariado. E o mesmo acontece no resto da Europa.
“Há aqui alguma coisa que não bate certo. Por um lado, as estatísticas dizem-nos que há um decrescimento das práticas do voluntariado, que se traduz em número de voluntários, mas, curiosamente, encontrámos organizações com expectativas de crescimento”, questiona Carla Ventura. “Seis por cento é muito abaixo de um país que já teve mais de um milhão de pessoas envolvidas em ações de voluntariado. E o mesmo acontece no resto da Europa. Esta diminuição está relacionada com a oferta e reside muito na falta de estrutura e de condições. Há uma dependência muito grande das iniciativas das empresas, organizações e universidades. E muitas vezes as organizações têm recursos limitados.”
Este desfasamento entre procura e oferta – entre cidadãos disponíveis e oportunidades organizadas – é um dos principais entraves ao desenvolvimento do setor. Muitas organizações continuam a encarar o voluntariado como “solução de recurso e não como um ativo estratégico integrado no planeamento”. Carla Ventura sublinha que “esta mudança de mindset não é apenas uma ação. É uma estratégia duradoura, de continuidade, que faz com que haja uma prática mais consistente.”
A presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome e da Entrajuda, Isabel Jonet, reconhece uma diminuição no número de voluntários em campanhas específicas, mas recusa a ideia de declínio generalizado. “Sobre a tendência de haver mais ou menos voluntariado, acho que há mais. Conta-se dificilmente. Portugal tem uma matriz católica e o voluntariado ainda está incluído nesta não métrica. Não atribuímos valor real ao voluntariado, ao invés dos países anglo-saxónicos. [Barack] Obama celebrou o primeiro ano de presidência dos Estados Unidos numa ação de voluntariado com os sem-abrigo. O Presidente Marcelo [Rebelo de Sousa] valorizava o voluntariado e a participação cívica como algo transformador e gerador de impacto nas pessoas”, justifica Isabel Jonet.
No entanto, Isabel Jonet não ignora os desafios estruturais de um setor social que acompanha de forma permanente há 34 anos, através do Banco Alimentar. A integração de voluntários exige “tempo, formação e organização”, o que nem sempre é compatível com a realidade das instituições. Em alguns casos, surge até como “ameaça ao emprego no setor social”, gerando resistências internas. Por isso, ganha relevância o voluntariado de competências, capaz de qualificar a intervenção sem substituir funções profissionais.
voluntários registados em Cascais, que conta com uma rede de 109 entidades
“Há um trabalho muito grande a fazer nas organizações sociais, mas é muito redutor pensar que se reduz apenas ao setor social. Nesta área, o emprego compete com o voluntariado. Muitas vezes, as técnicas têm receio de que os voluntários as substituam nos seus postos de trabalho e não acolhem tão bem. A Entrajuda tem procurado criar oportunidades noutros setores, além do social, e mostrar que o voluntariado de competências pode fazer com que o tempo consagrado às pessoas seja mais bem aproveitado”, justifica a responsável.
Tenho a certeza de que o voluntariado será determinante para lidarmos com alguma desumanização que as novas tecnologias vão impor à sociedade.
Ao mesmo tempo, Isabel Jonet destaca uma transformação importante: o voluntariado tornou-se mais acessível e visível, sobretudo entre os jovens. Há mais propostas, a significar mais “concorrência” entre iniciativas. A chave está na comunicação e na capacidade de mostrar impacto. “O voluntariado constrói-nos e desconstrói-nos. Olhamos para tudo o resto com mais simplicidade e sem ideias feitas. Tenho a certeza de que o voluntariado será determinante para lidarmos com alguma desumanização que as novas tecnologias vão impor à sociedade”, conclui a convidada.
Ao nível local, as autarquias começam a assumir um papel determinante na estruturação do voluntariado. Os exemplos da Maia, Cascais e Vila Nova de Gaia ilustram uma mudança de paradigma, com políticas públicas consistentes a substituírem iniciativas dispersas.
Na Maia, o município aceitou o desafio de criação do centro de voluntariado Compromisso, em 2020. Aposta reforçada pela capacitação de agentes, criação de regulamentos e integração do voluntariado no contexto escolar. A estratégia deu frutos, com o reconhecimento da Maia como Capital Portuguesa do Voluntariado em 2025 e europeia neste ano. Alinhada com a Agenda 2030 das Nações Unidas, que considerou 2026 o Ano dos Voluntários para o Desenvolvimento Sustentável. “Crescemos com a aprendizagem daqueles que já tinham centros de voluntariado, num ambiente perfeito, para não cometermos erros passados. Conseguimos pôr rapidamente em prática tudo aquilo que fomos aprendendo enquanto município capacitado para abrir um centro de voluntariado. Tem sido um processo contínuo de aprendizagem e melhoramento. Somos uma estrutura de proximidade e procurámos incutir este espírito de coesão social desde o início”, justifica a diretora do Departamento de Desenvolvimento Social, Desporto e Juventude, Mafalda Roriz.
A sensibilização precoce para o voluntariado, promovendo uma cultura de participação desde o ensino básico, é a receita da Maia para a transformação de mentalidades. “Acredito que teremos pessoas diferentes num futuro próximo. Só assim teremos sociedades mais resilientes. Creio que os municípios têm esse poder transformador. Sabemos que a comunidade responde rapidamente a situações de crise quando o voluntariado está enraizado”, justifica a responsável.
Cascais apresenta um modelo mais consolidado, porque o voluntariado é já uma política pública institucionalizada. Com 19.391 voluntários registados e uma rede de 109 entidades, o município demonstra que o investimento estruturado gera retorno, estimado em cerca de 15 milhões de euros anuais em valor de trabalho, a título de exemplo. A continuidade política e a capacidade de medir impacto são considerados fatores essenciais pelo vice-presidente da capital portuguesa do voluntariado em 2024, Luís Almeida Capão.
“Já estamos a permitir que pessoas com mais de oito anos se possam organizar em pequenas comunidades para resolverem problemas para os quais a câmara ou junta de freguesia acabam por não ter capacidade de resposta. Questões tão pequenas que ficam esquecidas numa autarquia como Cascais, que representa 214 mil cidadãos. Já estamos num nível tal de impacto na sociedade que é impossível estarmos dependentes de um ciclo político”, justifica o cascalense, que serve o concelho desde 2006.
Em Vila Nova de Gaia, Capital Portuguesa do Voluntariado neste ano, o desafio passa por organizar e potenciar recursos já existentes, segundo a vereadora Elizabete Silva. A aposta centra-se na articulação entre autarquia, tecido empresarial e instituições locais, com foco no voluntariado de competências. A criação de uma rede ativa e a melhoria da comunicação surgem como prioridades para dar visibilidade ao impacto e aumentar a eficácia das respostas. “Sei que as empresas querem contribuir e faz parte dos seus planos. Como é que fazemos o match disto? O ideal seria uma app de encontros. Do ponto de vista das instituições e das associações que já estão no terreno, que conhecem as pessoas nas autarquias, há um conjunto de recursos que já existem e não são aproveitados. Colocámos o desafio às instituições que estão no terreno para nos indicarem os projetos aos quais pretendiam concorrer e o trabalho que estamos a fazer é um voluntariado de competências. Como arranque, temos 50 projetos, que fizemos chegar a mais de 300 empresas e já temos um apadrinhado”, explica a responsável.
No conjunto, as diferentes intervenções convergem num ponto essencial: o futuro do voluntariado em Portugal depende menos da vontade dos cidadãos e mais da capacidade de criação de estruturas, estratégias e reconhecimento, que permitam transformar essa vontade em prática consistente.