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Voluntariado, o Tempo que Conta
Da comunidade para as empresas
Filipe Mello, Joana Castro e Costa, Andreia Marques e Maria João Ruela, durante o painel denominado “O que o voluntário desenvolve em nós – e por que isso interessa às organizações”.
Evento

Da comunidade para as empresas

Entre a criação de experiências com significado, a defesa de ações desinteressadas e o reforço de competências nas organizações sociais, fica a ideia de que o voluntariado interessa às empresas porque desenvolve pessoas, fortalece culturas e gera impacto real.

Propósito, liderança e transformação nortearam a conversa sobre o tema “O que o voluntariado desenvolve em cada um de nós e porque isso interessa às organizações”. Andreia Marques, em representação da Galp, Filipe Mello, CUF – Hospitais e Clínicas, e Joana Castro e Costa, Nova SBE, apresentaram perspetivas distintas, mas convergentes, sobre o exercício do voluntariado em ambientes de trabalho.

Para Andreia Marques, head of People Experience da Galp, o voluntariado não deve conter uma lógica instrumental nas empresas. O valor não está em “praticá-lo porque encontro um objetivo tangível de promoção ou outro”, segundo as suas palavras. Na Galp, a aposta faz-se na criação de experiências com significado, capazes de gerar propósito e de tocar as pessoas de forma mais profunda. Na visão de Andreia Marques, uma das maiores virtudes do voluntariado, “raríssima” para quem trabalha em recursos humanos, “é a sensação de que se recebe mais do que se dá”. Quando isso acontece, o impacto é real.

“Na Galp, tentamos criar contextos naturais em que as pessoas estejam de forma comprometida a contribuir para os outros. A única coisa que tentamos fazer é ajudar a perceber como aquilo que sentiram ali às vezes é transferível para aquilo que sentem aqui”, explica a responsável.

Nos exemplos apresentados no painel, o voluntariado pode criar uma transferência muito concreta entre contextos. Nesta atividade, “há lideranças que descobrem perspetivas novas quando saem da formalidade do papel exercido diariamente e há colaboradores que, ao assumirem funções habitualmente associadas à liderança, passam a compreender melhor as dificuldades e limitações desse lugar”. Para Andreia Marques, esse cruzamento de experiências contribui para aproximar pessoas e reforçar os valores da empresa na relação com a comunidade.

  • Joana Castro e Costa e Andreia Marques durante o segundo painel da conferência, denominado ‘0 que o voluntário desenvolve em nós – e por que isso interessa às organizações’

    Joana Castro e Costa e Andreia Marques durante o segundo painel da conferência, denominado ‘0 que o voluntário desenvolve em nós – e por que isso interessa às organizações’

  • Os representantes das autarquias - Mafalda Roriz, Elisabete Silva, Luís Almeida Capão –, durante o painel ‘Voluntariado: a força invisível que mantém a missão social de pé’

    Os representantes das autarquias - Mafalda Roriz, Elisabete Silva, Luís Almeida Capão –, durante o painel ‘Voluntariado: a força invisível que mantém a missão social de pé’

Voluntariado puro

Filipe Mello, Healthcare manager da CUF, coloca ênfase na estrutura interna do voluntariado corporativo. No Grupo José de Mello, no qual a CUF está inserida, existe um programa transversal de voluntariado com um limite anual de 40 horas, “sem perda de remuneração”. O modelo combina uma plataforma de oportunidades já existente com a possibilidade de os próprios colaboradores proporem iniciativas com impacto comunitário, numa abordagem flexível e abrangente. O propósito é simples, conforme frisa o especialista em recursos humanos: “O voluntariado não deve ser sobre o eu, mas, sim, sobre o que o outro precisa naquele momento.” Mas Filipe Mello também é firme na defesa da ideia de que “não se deve usar o voluntariado como ferramenta de gestão do colaborador”. A premissa é preservar a essência do voluntariado, evitando transformá-lo num instrumento administrativo. “É importantíssimo para medirmos resultados e ajuda-nos a passar cultura e a alinhar valores. Mas não é um critério de promoção. Nos recursos humanos, não sabemos quem faz voluntariado”, reforça o gestor da CUF.  

A capacidade de desconstruir o lado mais rígido e uniforme das organizações também merece a análise de Filipe Mello. O voluntariado ajuda a trazer à superfície um lado “mais humano, mais vulnerável” e menos formatado das pessoas. Nessa medida, faz parte de uma herança familiar de presença na comunidade, fundacional, patente na história do industrial e trisavô Alfredo da Silva, que “decidiu criar o primeiro hospital da CUF, em 1945, para servir os seus colaboradores e familiares”.

É importantíssimo para medirmos resultados e ajuda-nos a passar cultura e a alinhar valores. Mas não é um critério de promoção. Nos recursos humanos, não sabemos quem faz voluntariado.

O luxo de poder pensar

Já Joana Castro e Costa, diretora-executiva da Nova SBE Leadership for Impact Knowledge Center, centra a análise nas necessidades concretas das organizações sociais. Coordena um programa nascido em 2019 no âmbito da parceria entre o BPI, a Fundação “la Caixa” e a Nova SBE, com o objetivo muito definido de criação de uma ponte entre “talento de gestão e setor social”. “A ideia é atrair participantes com competências relevantes para a tomada de decisão e levá-los, em regime de voluntariado pro bono, a fortalecer organizações sociais que enfrentam dificuldades na atração e retenção de talento”, explica a responsável.

O programa inclui uma formação em sala e contacto direto com organizações sociais desde o início. Depois dessa etapa, entra em ação uma espécie de “match maker”, que cruza o perfil dos participantes com as necessidades concretas de cada instituição, formando conselhos consultivos com vários membros e acompanhando o processo com proximidade. O objetivo não é apenas formar pessoas, mas criar uma relação duradoura entre conhecimento de gestão e organizações que precisam desse apoio para se estruturarem. Diz Joana Castro e Costa que a maior dificuldade observada nas organizações sociais é a ausência de organização estratégica: “Muitas organizações sociais nem sabem muito bem o que é uma reflexão um pouco mais longa sobre o potencial de atividade, porque estão assoberbadas em sentido de urgência e de missão constantemente. Portanto, parar para pensar é um luxo a que muitas delas não se permitem.”